Sábado, 29 de Outubro de 2011
Capítulo 4 - Culpa

A “estupidez” da minha irreflectida decisão abateu a minha existência, demasiados minutos depois de Ivan ter fechado a grande porta marrom.

Não sabia o que me tinha feito aceitar tão ridícula proposta. O frio? A chuva? Ou talvez algo mais. Algo muito mais aterrador: aquilo a que os outros chamavam de “esperança”. Esperança… Esse sentimento tinha-me sido descrito como a crença em algo bom, ou promissor num futuro próximo.

Talvez se encaixasse… No entanto, tudo o que sentia era um agradável calor que me percorria a nuca. Duvidava que fosse isso.

Tinha-me voltado a sentar no cómodo sofá cor de lama à espera do desconhecido, deduzi, perante o facto de Ivan me ter pedido para aguardar.

Aquilo era néscio. Sabia-o. Sentia todas as células do meu corpo a apontarem para a porta. Queria correr. Dar alguma utilidade às minhas pernas entorpecidas, mesmo que uma estivesse praticamente inutilizável. Queria voltar para o mar, para o meu mar. Estava com fome. Queria caçar um grande e saboroso humano. E saciar a minha fome. Queria simples.

Porém, por outro prisma, eu ansiava por respostas que sempre me foram privadas. Ansiava saber-me. E assim, fiquei. À espera.

A verdade é que a minha espera não foi prolongada por muito tempo, tendo sido interrompida no momento em que o seu porte marcadamente masculino entrou na sala calorosa.

- Precisamos de falar – anunciou, num tom solene, enquanto voltava a tomar o seu lugar naquela poltrona, que deveria ser igualmente confortável.

- Sobre? – Inquiri-o, pondo uma expressão supostamente intrigada.

- Como é que respiras? – Perguntou-me, cortando pelo mais curto dos atalhos.

- Ou seja, queres uma lição de anatomia?

- Não… Quer dizer, sim. – Ivan parecia confuso. Não deveria ser ele o guardião das respostas? – Eu só quero perceber tudo antes de agir. – Isso parecia-me… Razoável.

- Bem, eu respiro com os  pulmões, como toda a gente, penso.

- Eu não estou a dizer fora de água, mas sim, dentro.

- Da mesma forma que tu o fazes, quando mergulhas no mar. As seirens são mamíferos. Precisamos de ar para respirar. Mas, enquanto vocês têm uma capacidade de apneia de dois minutos, no máximo, nós podemos estar até três dias sem vir à superfície.

Ele olhou para mim com uma severa expressão de incredulidade, como se tivesse balbuciado a pior mentira de sempre.

- E como… Como é que te transformaste numa humana? E quanto tempo é que vais poder passar sem água? E porque é que não te transformaste numa seiren, no momento em que a chuva te tocou o corpo?

- Eu não me transformei numa humana – disse, com alguma repugnância. - Nós podemos passar semanas sem irmos para a água, porém temos de beber água salgada regularmente, para nos mantermos sãs. Nós só reagimos à água do mar, a água doce não nos afecta.

- Mas… Como é que ficaste com pernas?

- Há coisas que estão para lá do entendimento de todos os mortais. Vocês, humanos, dantes que eram tão crentes, tornaram-se tão cépticos perante tudo, apenas por terem entendido nem um centésimo do que vos envolve. Nem todas as seirens vivem no mar. Algumas, por simples desespero, tiveram de abandonar os oceanos, para procurar comida em terra.

- Porque é que estão desesperadas? – Perguntou-me, num misto de preocupação com repugnância.

- A comida desapareceu dos mares. Vocês abandonaram as água, assim que retiraram tudo o que necessitavam, sem pensar duas vezes. Cresceram, tornaram-se mais fortes e desenvolveram-se e agora pouco ou nada nos resta. Quando vou para o mar, vejo pessoas a morrer de fome, ou em lutas por comida. Foi por isso que eu vim. Nunca me teria aproximado tanto da costa se a fome não se tivesse apoderado de mim.

- Porque é que vocês não se unem e atacam em conjunto?

- Costumávamo-lo fazer. Mas já não temos a mesma capacidade. A loucura vivida por aquelas gentes é algo indescritível. Está cada uma por si só. Costumávamos ser unidas. Costumávamos ser regradas pela lógica e pela razão. As punições eram desnecessárias, porque havia razões para as pôr em prática. Mas agora… Agora medidas mais árduas têm de ser tomadas. Nós não podemos simplesmente desaparecer.

- Vocês só comem humanos? – Expirou, com a mesma expressão de repugnância.

- Nós só podemos comer carne. Podemos comer tubarões e alguns outros animais carnívoros. Porém, os homens sempre foram os mais apreciados. O alimento mais apreciado, o alimento que nos torna mais fortes. A nossa própria ambrósia.

Ele olhou-me com um nojo pendente nos lábios cinzelados e viu-me como se eu fosse o mais terrível dos horrores.

- Não olhes para mim como se fosse um monstro, porque não o sou! – Exclamei. – Tu também comes carne. Pior, tu crias a carne que comes, alimenta-la e deixa-la crescer para depois a poderes matar e alimentares-te a ti e aos teus. Como é que isso é melhor do que aquilo que eu faço?

- Essa carne, como tu lhe chamas, não tem família, nem ninguém que os ame – disse revoltado.

- Como é que podes dizer isso? Como é que podes ser tão hipócrita? Como é que podes dizer que essa carne não tem ninguém que os ame, quando tu fazes com que eles reproduzam entre si, só  para depois poderes ceifar a vida de uma mãe, em vez da de um simples ser. Como é que nós somos os monstros se nem sequer comemos mulheres ou crianças?

- Estás bem? – Perguntou-me, saindo da poltrona e colocando uma mão no meu ombro molhado. Só depois percebi o porquê do seu gesto: o meu corpo tremia compulsivamente, como se de uma convulsão se tratasse.

- Estou! – Exclamei, afastando, num movimento brusco e irreflectido, a sua mão. – Não é justo, sabes – disse-lhe, quando os tremores acalmaram. – Vocês pensam-se donos de uma tal superioridade. De uma altivez tal, como se donos do mundo fossem. E tens a coragem para me julgar, quando tu, neste momento, está a consumir o teu e o meu planeta, através de males que só vocês fazem. Como é que isto pode ser justo? – Perguntei-lhe, fitando a sua inabalável beleza.

- Quantos humanos é que tu já mataste, Adriadne? – Perguntou-me, com um súbita tristeza na face.

- Não sei – admiti.

- Anda – disse levantando-se do sofá.

Segui-o sem questionar, até ele atravessar a grande porta castanha, que dava acesso à saída.

- Vais-me expulsar? – Perguntei-lhe cruamente.

- Não – disse, como se o tivesse ofendido.  – Vem comigo – limitou-se a pedir.

Andei com ele, pela estrada abetumada até a um grande terreno relvado cheio de lápides. Atravessámos um grande portão de ferro forjado e continuámos naquele paço marcado pelo silêncio até pararmos na frente de quatro lápides perfeitamente alinhadas.

- Bem-vinda ao cemitério de Nice – disse, numa expressão francamente mórbida.

- Quem são? – Perguntei-lhe, ao apontar para as lápides.

- As pessoas que os teus mataram – disse pervertidamente. – Queres saber quem são? Eu digo-te. Aqui jaz toda a minha família. A minha mãe, as minhas duas irmãs e o meu pai. Éramos uma pequena família de pescadores, a viver numa pequena casa térrea. Éramos felizes. Um dia, o meu pai foi com elas para o mar e nunca mais voltou. Passaram-se três anos sem eu saber o que tinha acontecido. Tinha partido para a faculdade, tinha-os deixado sozinhos e, quando voltei, nada restava se não os seus esqueletos cravados por dentes estranhos, dentes diferentes. O meu pai costumava-me contar histórias sobre vocês, sobre o quão perigosas vocês eram. Logo que vi os esqueletos putrificados soube o que lhes tinha acontecido. Vocês mataram-nos. As minhas irmãs eram meras crianças e tu tens a coragem de me dizer que não comem crianças, nem mulheres. Então explica-me isto, Adriadne? Explica-mo e depois diz-me que não são monstros. E depois diz-me que eu estou errado. – A sua cara contorcera-se na mais profunda das dores. Não o compreendia. A morte era uma coisa natural, acontecia todos os dias e envolvia-me como ar que respirava.

No entanto, sem saber porquê. Sem saber a razão, algo rugiu de dentro de mim e uma pequena lágrima vermelha brotou do meu olho aberto. Uma lágrima que ele colheu com o seu polegar, acabando por proferir:

- E isso é culpa, Adriadne.


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publicado por Jessie Bell às 00:32
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