Sábado, 29 de Outubro de 2011
Capítulo 6 - Reflexo

A noite arrebatou a sala onde ele me deixou para dormir, depositada no agradável sofá castanho. Ignorando o facto de as seirens não dormirem muito mais de meia hora, por dia.

No entanto, enquanto me enroscava por debaixo da macia manta laranja, senti o cansaço daquele louco e longo dia assolar-se sobre o meu corpo. Assim, o sono invadiu a minha trivial existência, deixando-me repousar, perante todas as questões que me haviam sido colocadas.

 

Abri os olhos para fitar o dia que tinha nascido. Não estava acostumada a dormir por tanto tempo. Talvez esta diferente forma de corpo tivesse outras necessidades, que desconhecia. A verdade é que raras eram as vezes que eu saía de água, nunca estivera tanto tempo fora do meu meio eleito.

Não tardou muito até ele entrar pelo grande arco de madeira escura, que ligava o estreito corredor à ampla e arejada sala. Envergava nada mais do que umas calças de ganga de um azul claro e uma camisola de um material fino, preta, calçando uns sapatos de pano, que combinavam com a camisola. Levava à boca uma fatia de pão, com um aspecto ligeiramente queimado, e uma caneca florida, variando entre um e outro.

Olhou-me com os olhos esbugalhado, apenas para verificar que ainda me encontrava estendida sobre o seu sofá.

Fez-me um leve sinal, para que afastasse as pernas esticadas, de modo a sentar-se. Pousou a caneca, numa mesinha de vidro que ladeava o sofá, repondo-a por uma grosso livro de capa dura e vermelha. Começou a ler, sem proferir uma única sílaba e só momentos depois tive a coragem para lhe dizer:

- Lê.

Ivan fitou-me e começou, virando antes uma página:

- "Contesta qualquer coisa, mas não contestes a tua própria natureza."[1]

- Isso é bonito - disse, com exagerada simplicidade.

- Isso é verdade – corrigiu-me.

- Isso significa exactamente o contrário daquilo que me tentas provar. Se eu não contestar a minha própria natureza, nunca saberei se tenho ou não tenho alma.

- O facto de teres, ou não teres alma, em nada se aplica a esta frase, porque esse dilema não se trata de uma questão, mas sim de um dado adquirido, quando eu te digo que tens alma – disso com um grande nível de prepotência.

Suspirei, deixando-me cair novamente a cabeça no almofadado braço do sofá e ele remeteu-se novamente ao silêncio do seu livro, mordiscando a fatia de pão, até ela se reduzir a meras migalhas.

Assim que o pão desapareceu da sua máscula mão, fechou o pesado livro cor de fogo, num som seco, e fitou-me, parecendo que estudava cada uma das linhas do meu flexuoso corpo.

- Precisas de roupa – anunciou, como se um comunicado estivesse a fazer.

Olhei-o boquiaberta, sem saber como reagir. Limitei-me a acenar.

Levantou-se num movimento simples e dirigiu-se até à porta, sendo apenas interrompido pelo som da minha macia voz.

- Onde vais?

- Vou buscar-te roupa – disse, com uma estranha simplicidade. – Ficas bem sozinha? - Perguntou-me com um tom preocupado.

- O que é que eu faço na tua ausência?

 Pelo mesmo arco que entrou, saiu, sem dizer qualquer insignificante vocábulo.

Quando voltou, um pequeno aparelho, com fios brancos ao penduram, foi-me depositado nas mãos.

- O que é que é suposto eu fazer com isto? – Perguntei, numa expressão extremamente interrogativa.

- Isso dá música – disse-me.

Com um cuidado significativo enfiou os pequenos fios, que terminavam em esferas metálicas, dentro das minhas orelhas, à porta dos meus ouvidos. E carregou num pequeno botão.

Uma melodia suave invadiu-me o cérebro, de uma forma extrema e estranhamente agradável.

Sorri-lhe e agradeci, vendo-o sair no momento em que acabara de proferir um simples “obrigada”.

 

Aquela leve música seduziu-me, fazendo com que os meus ruins pensamentos abandonassem a minha cansada mente. Assim, acabei por cair num estado de êxtase tal, perdendo a consciência de espaço, tempo, ou qualquer outra noção física ou psicológica. O meu ser foi transferido para um mundo alternativo, onde a beleza e o ritmo disfarçadamente marcado reinavam. Era um sítio bastante agradável para se estar e assim deixei-me engolir por aquele pedaço de desconhecimento.

Algo perturbou o meu estado levemente comatoso.

Ivan.

Olhava-me de olhos demasiado abertos, com a cara demasiado próxima da minha, numa expressão demasiado preocupada. Senti os meus olhos mudarem de posição, para fitar na mão que me abanava veementemente o ombro.

- Estás bem? – Ouvi dez segundos depois.

As palavras que atingiram o meu cérebro, por de baixo da inebriante música, demoraram algum tempo a fazerem qualquer tipo de sentido, ou lógica e, por um momento, duvidei que estes estranhamente estranhos vocábulos fossem pronunciados por aquele homem.

A realidade abateu-me somente algum tempo depois. Fitei os seus olhos castanhos, que se revelavam inquietos.

- Adriadne, estás bem? – Voltou a perguntar, abanando-me mais um pouco.

- Estou – proferi, com simplicidade.

- O que é que aconteceu? – Perguntou, sem aligeirar o notório tom de preocupação.

- Não sei – disse. – Estava a ouvir música e… Bem, de repente desapareceu tudo.

Ele fitou-me na mais pura das incredulidades, arrebatando-me das mãos o pequeno aparelho para o guardar no bolso.

- Pelos vistos a música não foi muito boa ideia – disse mais para si própriao, do que para qualquer outro ser que pudesse estar a escutara aquele singular diálogo.

Acenei levemente, sem saber bem o que é que tudo aquilo significava.

 - Assustaste-me – admitiu e enrolou os braços à minha volta.

- Então? Trouxeste-me roupa? – Perguntei, tentando aligeirar o pesado ambiente.

- Sim – e soltou-me do seu desajeitado abraço.

Entregou-me nas mãos um molhe de tecido dobrado desleixadamente.

- Trouxe mais, mas por enquanto podes vestir essa.

Assenti e comecei a puxar a camisola meio arruinada que envergava, até ter sido travada pela sua mão no meu braço. Abanou a cabeça negativamente e proferiu:

- Na casa de banho, Adriadne.

Conduziu-me a uma divisão coberta por berrantes e pequenos azulejos cerúleos. Grandes objectos, de cor branca, ocupavam mais de metade do estreito espaço. Uma espécie de cadeira, com um buraco, uma bacia, embutida numa espécie de mesa e uma pequeníssima piscina, com uma torneira e algo que se assemelhava a uma cabeça de peixe, por cima.

Tirei a camisola ainda meio húmida e atirei-a para cima de um cesto que se encontrava já com outras peças de roupa.

Quando separei a roupa por peças, vi que cada uma tinha uma pequena mensagem desenhada. Mais precisamente uma menina a vestir cada uma das peças.

Comecei por enfiar pelas pernas aquilo a que se assemelhava a dois triângulos cosidos. Depois as calças. Umas simples calças justas de um material duro, azul e escuro.

Peguei na terceira peça. A mais esquisita de todas. Dois triângulos de proporções consideráveis unidas por múltiplos fios. Esta invulgar peça não trazia nenhuma mensagem.

- Ivan – comecei, abrindo escancaradamente a porta – o que é que é isto?

Uma cor rubra subiu-lhe às fortes maçãs do rosto. Vi-o debater-se perante inúmeras emoções que transpareciam no seu extremamente belo rosto.

- Isso é… - começou, com vontade de tapar a cara, com as mãos. – Tu sabes… É para tornar as coisas mais confortáveis – disse, com a voz intermitente.

- Que coisas? – Perguntei, tentando satisfazer a minha crescente curiosidade.

Inspirou e expirou, num movimento relaxante e riu-se um pouco para si próprio.

- Isso é um soutien… É para as… É para as tuas mamas – acabou por dizer.

- Bem… Obrigada – acabei por dizer, continuando sem entender toda aquela intermitência.

Enfiei a peça causadora de grande confusão, rezando para que a tivesse colocado correctamente, para não tornar Ivan desconfortável, novamente.

Passava pela estranha bacia, quando reparei numa grande janela. No entanto, não fora a janela que me intrigara, mas sim o que continha.

Uma belíssima rapariga de cabelos ruivos e lisos aparecia do outro lado, fitando-me com grande curiosidade. A sua beleza era inimaginável. Tudo no seu rosto era perfeitamente perfeito, desenhado com o maior dos rigores e na maior das mestrias. Ela era estonteantemente linda.

Queria perguntar-lhe quem era, mas no momento em que abri a boca também ela o fez, por isso fechei-a, dando-lhe a oportunidade de começar o diálogo. Porém, também ela se remeteu ao silêncio. Sorrimos uma para a outra. O seu sorriso era… Toda a sua figura estava a tornar-se insuportavelmente bela.

Queria tocar-lhe e assim levantei um dedo, mesmo vendo-a a repetir o gesto. No momento em que os nossos dedos se tocaram, uma fria superfície afastou-nos. Deixando-nos com um grande “o” desenhado na boca rosada.

Chamei por Ivan, com a voz urgente.

Ele entrou de rompante pela porta castanha que separava a casa de banho, do corredor.

- Olha – disse, apontando para a bela rapariga que repetiu o mesmo gesto que eu.

Ivan aproximou-se de mim, porém, no momento em que o fez, a sua imagem apareceu, ao mesmo tempo, nos dois lados da estranha janela.

- O que foi? – Perguntou, confuso.

- Ela – disse, apontando, novamente. – Conhece-la? Ela é linda.

- Ela és tu, Adriadne – disse num franco sorriso.

Olhei-o, com a mais franca expressão de surpresa.

Tinha sido tão burra.

Era óbvio que aquela “janela” era nada mais do que um espelho. Olhei-me de todos os ângulos possíveis, somente para admirar a minha incomparável beleza.

- Sou tão… - As palavras sumiram-se.

- És absolutamente bela. Eu sei – admitiu. – Nunca te tinhas visto a um espelho? – Perguntou-me, por pura intriga.

- Nunca – disse.

Ele arredou os belos cabelos dos meus belos ombros, apenas para poder admirar a minha bela cara.

- Então, o que é que achas?

- Acho… Não sei. Eu sou… Eu sou extraordinariamente bela. Sempre pensei que exagerassem.

- Muito pelo contrário. Será difícil descrever tal incomparável beleza.

- Queres beijar-me? – Perguntei-lhe, fitando-lhe os olhos.

Os seus brancos dentes fincaram os lábios carnudos e depois de um momento de introspecção, proferiu:

- Não.

Um choque grave contorceu-me o rosto.



[1] John Parry in His Dark Materials, The Subtile Knife


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publicado por Jessie Bell às 00:34
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