Sábado, 26 de Novembro de 2011
Capítulo 11 - Claire de Lune

 

Para as seirens, para o meu povo, o ato de nadar sempre fora o primordial da naturalidade. Porém, agora que retornava ao meu lar, o normal não era, de todo, o adjetivo que descreveria a estranha sensação causada pelo bater da minha cauda, por entre a corrente.

Talvez tivesse já passado demasiado tempo em terra e habituara-me em demasia às minhas compridas e esbeltas pernas, de cor marmórea.

Nadar.

Decidira que tinha de me concentrar numa única ação de cada vez, a fim de não deixar a loucura invadir o meu ser. Porém, algo me impelia a recuar. A voltar para trás. A voltar para ele.

Não era lógico, nem racional, nem mesmo ponderável. Era, quiçá, um instinto. Um instinto quase demasiado forte para ignorar.

Onde estaria ele?

Havia mesmo partido para casa de um amigo?

Ivan nunca mencionara ter amigos. Por tudo o que eu sabia, ele não tinha ninguém. Uma alma solitária que vagueava por entre o vento de uma vida demasiado marcada em tristezas e mágoas e dores. Tristezas, mágoas e dores criadas por mim. Criadas pelo meu povo. Como poderia deixar de pensar em tal inquietação, quando estava prestes a encontrar-me com aquelas que lhe causaram tal sofrimento?

À medida que a minha cabeça vagueava por tão imprecisas conjeturas, os quilómetros iam passando por debaixo do meu corpo, que se movia numa ondulação ritmada.

Não demorou muito até avistar a planície enorme e rochosa onde todo o consílio ocorreria.

O cenário que contemplava era, sem qualquer sombra de dúvida, o sonho de qualquer homem.

Uma planície no fundo do mar, rodeada por altos picos montanhosos. Uma planície repleta de belos seres mitológicos, metade mulher, metade peixe. As suas caudas voavam com a leve corrente que percorria a base da planura e entre elas desenvolviam diálogos fúteis, frutos da jovialidade dos seus espíritos.

Cerca de cem seirens se sentavam naquela enseada subaquática.

A beleza reinava naquele cenário onde a união de um povo milenar com a mãe natureza figurava como personagem principal.

Tencionava entrar e mostrar-me à fraca luz da lua, porém, no momento antes de encher os pulmões de coragem, senti duas mão suaves rodearem os pulsos, como grilhões de ferro.

- Adriadne! – exclamou uma voz extremamente familiar à porta dos meus sensíveis ouvidos. Num movimento quase coreografado, virou-me para que a conseguisse contemplar. A sua tez morena, os seus olhos pretos cor do carvão, o seu nariz fino, pequeno e angular e os seus lábios rosados e preenchidos completavam uma pequena cara oval e angulosa, emoldurada por cabelos encaracolados, da mesma cor dos olhos. E a sua cauda... A sua bela e invejada cauda cor de azul, lembrando safiras polidas e brilhantes.

Claire era o seu nome, fruto de um nascimento iluminado pelo mais belo dos luares. A sua beleza era invejada por todos e a sua simpatia disputada pelas suas mais íntimas amigas. Claire de Lune era, sem a menor das dúvidas, a seiren mais contemplada, mais invejada. Era, sem hesitação a preferida e, caso o nosso reino fosse uma democracia, seria ela, sem qualquer margem de dúvidas, a sucessora ao cargo agora ocupado pela minha mãe.

Sempre mantendo uma proximidade cúmplice, Claire e eu desenvolvemos uma relação algo peculiar. Era das poucas seirens que compreendia a minha situação. Era das poucas seirens que gostava de mim. Era das poucas seirens a que eu podia dizer tudo e vice-versa.

Alguém sem alma era o melhor dos seres para se confiar qualquer dos mais pérfidos segredos, porque, afinal de contas, não era como se tivesse o poder de a julgar. Não era como se, num acesso de ira, contasse a meio mundo todos os seus segredos e confissões desprovidas de sabor, mas que, na sua opinião, arruinariam a sua imagem, aos olhos das outras seirens. Claire era fútil nesse sentido, no entanto, todos os seres de alma o eram e, bem, eu não a poderia certamente condenar.

Assim, no momento em que os meus olhos se encheram da sua esbeltíssima figura, nada me impediu de enrolar os meus braços à volta do seu pescoço num abraço apertado, no qual ela respondeu de modo frenético.

- Claire – sussurrei-lhe de leve ao ouvido.

- Tive tantas saudades tuas, Adriadne. Porque partiste? Porque partiste sem aviso?

Em retrospetiva, talvez a devesse ter avisado, porém nada mais do que a fome levou à minha apressada partida. Ou, agora que os acontecimentos se desenrolaram da maneira de que se desenrolaram, talvez não tenha sido a fome que me tenha levado a abandonar o meu lar, talvez a inevitabilidade de um destino. De um destino que esperava agora uma conclusão.

- Tu sabes porque é que eu parti… - pelo menos, esperava que soubesse, sendo que nem eu fazia a mais pequena ideia.

Claire apenas se limitou a apertar-me mais nos seus estreitos braços, na forma de uma melancólica confirmação.

- Alimentaste-te? – perguntou-me, com um sorriso que lhe chegava aos olhos.

- Sim – menti-lhe. Nunca antes lhe tinha ocultado a verdade, porém, naquele momento, pareceu-me imperativo fazê-lo, não para me proteger, mas para o proteger, a ele.

- Alguma coisa de jeito? – inquiriu-me, novamente, lambendo os lábios, apesar de parecer bem alimentada.

- Nada que se repetisse… - voltei a mentir. Não queria outras seirens a rondar aqueles mares, apesar de tal me parecer inevitável.

- Não vais voltar a partir então, pois não? Oh Adriadne, tive tantas saudades tuas… Tenho tanto para te contar…

A mágoa observada nos brilhantes olhos de Claire fez com que um arrepio frio e agudo percorresse a minha coluna.

Não lhe queria mentir mais. Não era justo para ela. Era minha amiga e não a queria magoar. Mas tinha  de o proteger. Era meu dever fazê-lo, depois de tudo pelo que o meu povo o tinha feito passar. E eu era boa no que tocava a responsabilidades.

- Também tive saudades tuas – disse, de forma sucinta.

- Por favor, Adriadne, não voltes a abandonar-me.

Os meus olhos pediram-lhe para que parasse de falar tais insinuosas palavras e ela acenou e apenas proferiu:

- Eu compreendo.

- Desculpa - suspirei.

- Poderei ir contigo da próxima vez que partires?

- Não! - exclamei num acesso de exaltação irrefletida.

- Porque é que estás a ser assim para mim? Que mal te fizeram, lá fora? - perguntou-me, cuspindo cada palavra.

- Não me fizeram mal nenhum! - vociferei, enquanto pensava “muito pelo contrário…”.

- Então o que se passou? Porque voltaste tão amarga?

- Eu sempre fui assim - disse de forma seca.

- Não, não foste. Pelo menos não para mim…

- Lamento - acabei por proferir. Não era minha intenção ferir os seus suscetíveis sentimentos.

- Anda - disse. - Vamo-nos sentar.

Respirei fundo e entrei. Porém, quando o fiz, nada mais senti do que uma sensação fria e dolorosa, de olhos a cravarem-se em mim. Nada mais me custava do que isso. O ódio que emanava das minhas semelhantes. Mas não apenas ódio, talvez antes uma mescla de medo e ira e fúria e mágoa…

Entrei e sentei-me no lugar que era meu por direito. Na verdade, a  hierarquia sentida nestes conselhos era bastante simples: A minha mãe, a suprema governante, sentava-se no centro e ao topo. Eu, a sucessora, sentava ao seu lado esquerdo e a baixo e à direita sentava-se a protetora.

O dever desta seiren era o de, tal como o seu cargo indicava, proteger. Não o reino, pois esse era o trabalho de todas as seirens, mas sim o de proteger a governante. O de proteger a minha mãe.

Égide era o seu nome.

Égide não era bela, nem agradável, nem simpática. Era, no total sentido da palavra, uma guerreira. As cicatrizes que lhe cobriam a cara eram prova disso, tal como a sua cauda negra quase desfeita. Esta seiren estava condenada a nunca amar. Não por não ter alma, como eu. Tinha-a, por muito negra e gélida que fosse… Mas, ao assumir o cargo de protetora teve de abandonar qualquer tipo de esperança de encontrar amor, para poder somente concentrar-se na dura tarefa que enfrentava.

Sempre me considerou uma afronta para o reino. Sempre me considerou um monstro pérfido e horrorífico, tal como todas as outras. Égides era talvez aquela que mais apoiava a minha morte, de preferência, de modo cruel e tortuoso. E, se não pela minha mãe, no momento em que esta fria criatura tivesse vislumbrado um relance dos meus olhos baços e profanados da essência da vida, não hesitaria, nem por um momento, em ceifar a minha vida dos ásperos, mas calorosos, braços da vida.

Passaram-se cinco breves instantes até a minha mãe entrar, acompanhada de Égides, como era sempre, em todos os conselhos.

O seu porte elegante e poderoso iluminou a sala. E, enquanto atravessava aquela planície, nenhum par de olhos soltou o seu corpo, o seu rosto: a sua figura. Poderia ser descrevida talvez como extasiante. Sim, de facto, a sua beleza levava ao êxtase. A sua beleza era o êxtase.

Olhando incessantemente para mim, não se debateu quando parou à minha frente e me puxou para os seus braços, num abraço apertado, devorando o meu ser num calor frenético, que poderia ser descrito até como alegria.



P.S.: Peço desculpa por ter demorado tanto a voltar a escrever. Espero que não volte a acontecer...


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publicado por Jessie Bell às 00:44
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so many mystic stories (33):
De funeraire. a 4 de Janeiro de 2012 às 22:41
Eu sou bastante racional, é verdade, mas quando gosto de alguém, gosto mesmo. Sou muito intensa no amar, no odiar, entre outras. É por isso que odeio tanto os sentimentos. Entrego-me demasiado. 
A mim acham-me marrona. E arrogante. 


De Sássára a 4 de Janeiro de 2012 às 22:34
Comecei a lê-la hoje porque vi o teu link no blog de uma rapariga que sigo. Quando comecei, não consegui parar até chegar à parte onde tinhas parado. Eu também adoro escrever e tenho vários projectos inacabados, já para não falar nas fanfictions. E tenho a dizer-te que estou a adorar a tua história ^^


De Sássára a 4 de Janeiro de 2012 às 21:23
Continua a escrever, por favor :)


De Raquel a 3 de Janeiro de 2012 às 22:15
eu também estou a escrever uma história, mas estou encravada a meio. a sério. fico tanto tempo a olhar para o computador e dá-me uma raiva de não conseguir escrever uma única palavra. para desenferrujar decidi começar a postar uma história cá nos blogues. fiz um blogue e comecei a postar. espero não encravar também com essa.


De Raquel a 3 de Janeiro de 2012 às 22:09
O visual é lindíssimo, mas a tua maneira de escrever é que é o êxtase. Tão bom a sério. Amei. Gostei da descrição da Claire de Lune. Aliás, eu adoro as tuas descrições, são excelentes. E os diálogos também são bons. Espero que postes mais :)


De funeraire. a 3 de Janeiro de 2012 às 21:50
Ainda não encontrei duas pessoas exactamente iguais, #fact. Mas temos semelhanças. Mas ainda bem que temos diferenças, assim pudemos comentar as nossas semelhanças e trocar opiniões sobre as diferenças.


De funeraire. a 3 de Janeiro de 2012 às 21:06
Don't be sarcastic, eu falei a verdade. 


De s_blablabla a 31 de Dezembro de 2011 às 16:49

Ah, ok, não faz mal. Eu sei mas não sei como tira lo, é que sou mesmo tosca com computadores... Haha


De Inês a 23 de Dezembro de 2011 às 23:41
Obrigadaa :)


De Inês a 23 de Dezembro de 2011 às 23:37
It's cold e estou com gripe :s
Mas tenho passado os dias a ver Hawaii 5-O ;)


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