Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012
Capítulo 12 - "Eu digo que morreste"

 

O conselho tomou início, com o magnífico hino do nosso reino, ao qual eu estava impedida de cantar. Segundos os soberanos, as seirens sem alma – eu -  não estava habilitada a fazer música, por falta de “capacidade”. Tal frustrava-me, principalmente por ter noção de que não estava, de todo, incapacitada ao nível fonético. Assim, recostei-me um pouco mais no meu trono esculpido de rochas negras, incrustado por pequenas esmeraldas e pérolas.

Esperei que a música cessasse, para me concentrar no acontecimento e embater de novo na dura realidade.

Quando esse pequeno apocalipse se deu, a minha mãe começou o seu discurso. Este consistia no mesmo já há vinte anos, desde que a fome começara:

Começava por mostrar os pêsames e atribuir condolências às mortes sofridas. Depois avisava para qualquer ameaça que podia surgir. Congratulava a vitoriosas de guerras mal travadas e lamentava a fome vivida, aconselhando-nos elaboradas estratégias para a travar.

Enquanto discursava tal impetuoso falo, não me detive senão a examinar a lua, que brilhava acima da água, bem alto no céu noturno. A lua… Uma plena analogia para o que o meu ser se tinha revelado.

De um ponto de vista gelado, eu sou como a lua. Nunca apreciei em pleno quem sou e nunca ouvi as pessoas exclamarem qualquer tipo de elogio. Por outras palavras: eu nunca vi as estrelas. Como se elas estivessem sempre atrás de mim, em segundo plano. E, apenas quando o conheci, a ele, consegui ver o espelho. Assim, ele ajudou-me a ver a minha beleza e percebi o quão errado o reflexo da água era. Tudo o que antes tinha vislumbrado era um monstro cheio de cicatrizes e marcas e talvez, apenas talvez, não fosse essa verdade. Uma espécie de epifania acabou por chegar: as estrelas estão em segundo plano.

Sorri apenas aterrando na realidade quando a minha mãe proferiu o meu nome.

- Adriadne - começou de forma excessivamente solene – temos uma missão para ti.

Um arrepio frio percorreu a minha coluna, como uma espécie de premonição.

- Édiges ter-se-á de retirar do seu posto como guardiã. As suas forças abandonam agora o seu corpo, pois a sua idade já é demasiado avançada. Assim, decidimos atribuir-te a ti esse cargo.

Um burburinho levantou-se por toda a enseada. Com uma mão, a minha mãe calou-as e prosseguiu.

- Como sabes, terás de fazer alguns sacrifícios. Mas sendo que a possibilidade de te apaixonares não é calculável, não vejo qualquer empecilho em atribuir-te tal cargo. Afinal de contas, em tempos difíceis, todos temos de fazer sacrifícios. E poderás passar mais tempo comigo – disse, com um grande sorriso, como se a melhor das notícias me tivesse sido anunciada.

A minha boca ainda escancarada, nada conseguiu dizer e os meus olhos não se conseguiram fixar em mais nenhum ponto se não na lua. Uma lágrima começou a escorrer-me pelos olhos, tendo, em seguida, sido levada pela leve corrente.

Não podia negar tal cargo. Não mo era permitido, mas nunca mais poderia voltar a terra. Nunca mais o poderia ver. Nunca mais podia sentir o calor do seu abraço e sonância do seu riso, ecoando nos meus ouvidos. Nunca mais ouviria as suas palavras sábias e para sempre permaneceria a dúvida inquietante tocante à existência da minha alma.

Seria isto a tristeza? Talvez, pois nada mais do que um clarão corresponde àquele pequeno momento, em que num me encontrava no meu trono negro e no outro, à superfície, em cima de uma pequena ilhota. Onde me deitei e deixei fugir todas as lágrimas cor de fogo, que durante tanto tempo guardei.

Não poderia mais voltar para ele. Ivan acabaria por me pensar morta e brevemente me esqueceria. Porém, eu para sempre estaria condenada a sentir a sua falta. Para sempre sofreria com isso e nunca, nem que um milhão de anos passassem, o poderia apagar da minha mente.

Já era manhã quando a vi, encostada a minha cara, esperando que acordasse.

- Bom dia! – exclamou quando me viu abrir os olhos, para fitar a sua cara sorridente.

Olhei à minha volta. A lua já tinha partido e agora era o sol que enfeitava o céu azul, acompanhado por pequenas nuvens brancas e fofas.

- Toda a gente anda à tua procura – informou-me, com prontidão.

Levei as mãos à água fria e molhei a cara, para dela limpar todas as lágrimas secas.

- Quem é? – Perguntou-me, ainda a sorrir um sorriso penoso.

- Não sei do que falas – disse, mais recomposta.

- Então vou só informar as outras que já te encontrei – proferiu, entrando na água.

- Não, não vás. Fica comigo. Por favor, Claire. Não deixes que as outras me encontrem.

- Quem é? O humano que amas? Como se chama?

- Eu não o amo – disse de forma ríspida, ainda que surpreendida pela astúcia da minha fiel amiga. – Chama-se Ivan – concluí, face à sua expressão zangada. – Quando parti, - continuei, - nadei em direção ao sul de França. Aproximei-me demasiado da costa e ele apanhou-me. Feriu-me na perna, mas não me matou, por pena. Em vez, levou-me para sua casa. É lá que tenho estado. Ele ensinou-me o valor da minha existência, e eu sei que pareço louca, mas… Tudo o que ele me disse fazia tanto sentido e ainda faz. Ele tomou conta de mim, como mais ninguém tomou. Pela primeira vez senti-me apreciada e desejada. E, agora que parti, sinto a falta dele.

- Adriadne, eu não te acho louca. Nunca o achei. Na verdade, sempre achei que tudo o que diziam acerca de ti não era nada mais do que especulações. Nunca achei que alguém tão puro pudesse não possuir alma. Não deves ficar aqui se isso te deixa miserável. A tua vida já foi demasiado sofrida, para a tornares pior, ainda mais agora, que encontraste algo tão precioso.

Sem nada proferir, apenas a abracei. A seiren fútil e vazia, que em tempo tinha avaliado de tão degradante modo, agora revelava-se conhecedora e sensível.

- Vai! – exclamou. – Tu não mereces ficar aqui. Vai, Adriadne. Vai ter com ele e sê feliz. Eu digo que morreste e elas não mais te procuraram. Prometo-te. Guardarei o teu segredo, enquanto me for permitido viver. Talvez um dia nos encontraremos ainda. Quem sabe… Mas, por agora, trata de nadar, enquanto ainda ninguém foi por tais rotas.

- Muito obrigada, Claire – disse, voltando a abraçar o seu corpo marmóreo.

- De nada. Limita-te a ser feliz. 


música: You are the moon - The Hush Sound
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publicado por Jessie Bell às 23:04
link do post | Write a mermaid story | favorito

so many mystic stories (15):
De Raquel a 6 de Janeiro de 2012 às 23:29
ó meu deus, amei este capítulo. escreves tão bem. a sério. tão bem. estou apenas sem palavras.


De Annie a 6 de Janeiro de 2012 às 19:57
Oh meu deus, será que ela o vai encontrar?
Está fantástico como sempre, cada vez gosto mais da tua escrita.
beijinhos


De Inês a 5 de Janeiro de 2012 às 22:30
Oh pois :| Mas eu queria começar em grande! :o
Olha, I'm back in an hour! :)


De Inês a 5 de Janeiro de 2012 às 22:28
Obrigada por me fazeres mais triste :'( You're soooooo bad ass x)


De Inês a 5 de Janeiro de 2012 às 22:25
Ok, eu vou-me calar porque já reparei que ainda estás longe x)


De Inês a 5 de Janeiro de 2012 às 22:18
Não, a sério :'( Só te digo que foi mais de 14 mas menos de 16 :/


De Inês a 5 de Janeiro de 2012 às 22:15
Não quero dizer :( 
Foi demasiado má :|


De Inês a 5 de Janeiro de 2012 às 22:13
Ohh, coitadinha! Desculpa, não sabia! Tens razão que média merdosa, eu até tive média de 20! COME ON...QUEM ME DERA!


De Inês a 5 de Janeiro de 2012 às 22:07
*Coff* No!
A minha stora de inglês é uma fofa (NOT) e segundo os meus cálculos tinha média de 17,9, e a bitch deu-me 17!!!!!!! -.- Mas não, não foram boas :| O 1º período a FQ é para esquecer, porque este período as coisas estão a correr melhor :) E as tuas? Aposto em 19's :)


De Inês a 5 de Janeiro de 2012 às 21:59
Oh! It's the same, just publish it! :)


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