Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
Capítulo 1 - Punhal

Talvez não fosse tarde demais. Talvez não fosse tarde demais para mudar o estado degradante da situação. Mas, olhando em retrospectiva, o que poderia ser feito? Não era algo controlado por nós.

A verdade, é que há muito que os mares estavam despovoados de indefesos marinheiros e esse era o nosso maior problema.

Vira outras seirens morrerem à fome, ou de loucura pela escassez de alimento. A sociedade da superfície havia evoluído.

As frágeis caravelas tinham sido repostas por robustos petroleiros, petroleiros esses impossíveis de afundar. Raros eram os naufrágios e quando esses aconteciam levantavam-se rixas e lutas entre as seirens de diferentes mares.

Por vezes, tentávamos iates, ou pequenas embarcações na costa de África, no entanto os homens já não possuíam o mesmo cheiro a sal e a mesma adoração que dantes demonstravam por nós. Deixáramos de encantar jovens marujos, para satisfazer os nossos prazeres carnais, antes de os devorar. Agora, apenas os comíamos.

 A loucura instalara-se e não mostrava sinais de melhora.

E, enquanto eu via o povo do mediterrâneo a definhar, senti que era tempo de agir. Também eu começava a enfraquecer. Não comia há três semanas e não se podia dizer que o jovem que roubara de um pequeno iate que passeava pela costa de Itália fosse propriamente apetitoso. Era demasiado magro e franzino e gritou que nem uma menina quando o puxei para a água.

Dirimi então nadar em direcção à costa de França. Talvez por lá encontrasse alguns surfistas que se aventurassem em águas mais profundas, profundas o suficiente para os apanhar. Esses pelo menos ainda tinham o apetitoso cheiro a sal e sol cravejado na pele morena. Com sorte, encontraria algum tubarão pelo caminho e saciaria parte da minha fome. Estes animais, apesar de não serem tão saborosos como um homem adulto, quando continham o cheiro fresco de sangue, serviam para o efeito.

Sabia que tinha de informar a minha mãe. Porém, falar com ela sempre fora difícil.

Encontrei-a nadando na corrente quente que provinha do norte de África, a poucos quilómetros do lugar onde me encontrava. Quando cheguei ao pé da sua figura imponente, não me contive a absorver um pouco mais a sua beleza incomparável.

A tez cor de marfim brilhava com a clara luz que transparecia por entre a água, tal como a escamosa e comprida cauda cor de esmeralda, o corpo semi-nu encontrava-se curvilíneo e robusto. Porém, era na cara que se encontrava toda a beleza. Os olhos enormes da cor da cauda e o nariz pequeno reconhecível no meu próprio rosto, os lábios cheios e perfeitamente cinzelados completavam o gesto belo mas maduro que compunha aquela que era a minha mãe e a governante do nosso povo.

Lembrava-me como gostava de apreciar a beleza das minhas companheiras. Talvez, por não conseguir visualizar a minha. Os espelhos estavam longe do nosso alcance.

Sempre me descreveram como possuidora de uma beleza única, diferente de todas as outras. Disseram-me que o meu nariz era igual ao da minha mãe, que os meus olhos, grandes e abertos, como absorvendo o mundo num só relance, eram de um azul claro indescritível com leves círculos castanhos e que os meus lábios eram tão carnudos e repletos, que parecia que a própria Atargatis os tinha esculpido. E tudo isto completava uma pequena cara oval branca como o cal e enfeitada com um cabelo muito ruivo, liso, comprido e volumoso. Porém, sofria uma terrível maldição – a minha cauda, apesar de comprida e esguia, era incolor. Isto tratava-se de uma pura desonra. A alma de uma seiren estava descrita na cor da sua cauda. A da minha mãe era verde-esmeralda, informando-nos da sua esperança no nosso povo e da sua frieza, no que tocava a decisões.

A minha cauda nada transparecia.

Acusaram-me de ser o mais maligno dos monstros, indigna de coabitar com o resto do meu povo e, caso não fosse filha da nossa governante, ter-me-iam matado ao nascimento, para impedir de vir a lançar uma terrível maldição no nosso povo. Culpavam-me agora da fome e da desgraça e da loucura e acusavam-me de não ser uma descendente legítima de Atargatis. Disseram-me que não era digna de herdar o posto da minha mãe, que antes pertencera à minha avó. Acusaram-me de não possuir uma alma. Estava marcada, mesmo que fosse protegida pela minha mãe.

 Cheguei à sua beira e olhei-a nos olhos, falando com uma voz demasiado melódica, para soar normal:

 - Mãe, - comecei – vou partir.

Vi a sua expressão mudar: de tristeza, para preocupação, para esperança, acabando por se compor num leve sorriso.

- Compreendo. Para onde vais, minha filha? – Perguntou.

- Tenciono chegar à costa sul de França e ficar por aí.

- Lamento que tenhas de partir, Adriadne. Tem cuidado e não demores.

- Assim o farei.

- Que Atargatis esteja contigo, sempre, no teu coração.

- Adeus, mãe.

- Adeus, meu amor. – E dando-me um abraço apertado, despediu-se de mim, com mais algumas recomendações.

 Abandonei a minha mãe e o sítio a que chamava lar.

Não tinha a certeza sobre o que me fazia partir. A fome, de certeza. A desgraça, a miséria.
E talvez uma réstia de esperança. Mas como poderia eu salvar o meu povo? Não se encontrava ao meu alcance, por muito que o quisesse. Talvez se o salvasse me aceitassem como eu era – uma frágil criatura, metade mulher, metade peixe. Uma criatura bela e sem alma.

Assim parti, nadando em direcção ao sul de França.

Não sabia o que por lá iria encontrar e, apesar das minhas tentativas para me despachar, não chegaria ao meu “destino” nos próximos dois dias. Tinha medo. Disso não restavam dúvidas. Mas o desespero e a fome estavam-se a tornar cada vez maior.

 

Avistei terra dois dias depois, tal como tinha previsto. Por sorte, tinha encontrado dois tubarões pelo caminho e caçado os supostos ferozes animais. Não davam muita luta. Não quando ferrava os meus dentes, que nesse momento se transformavam em caninos, todos eles, no seus grosso e cinzento pescoço. Quando acabava de limpar toda a carne e sangue do esqueleto, deixava-os no chão, sem pensar muito nisso.

 

Quando pus a cabeça fora da água, naquela solarenga manhã, constatei que não me encontrava muito longe da praia. E onde havia praia, havia surfistas e onde havia surfistas, havia alimento. O meu tipo de alimento preferido. Tinha apenas de ter cuidado para não me aproximar demasiado da costa. No momento em que ficasse com pé, eles ver-me-iam e aí tornar-me-ia frágil e indefesa. Teria de esperar que um daqueles homens fosse destemido o suficiente para avançar para águas mais profundas e aí poderia encantá-lo e saciar a minha fome e todas as minhas outras necessidades.

Esperei, olhando a costa atentamente. Já vários surfistas estavam no mar. Porém, nenhum se aventurava demasiado longe para o poder caçar.

Continuava à espera, entusiasticamente, que alguém se afastasse da costa. E, passado algum tempo, assim o fizeram.

Um rapaz de tez morena, com olhos cor de chocolate, com o cabelo curto e da mesma cor. O maxilar forte desenhava o rosto ligeiramente quadrado. Os olhos amendoados mostravam-se concentrados, o nariz era perfeitamente esculpido por debaixo da pele, que ansiava tocar, tal como os seus lábios carnudos. A sua figura era imponente, mesmo sentado na branca e comprida prancha de surf. Envergava um fato ridículo, que me lembrava uma foca.

Comecei a cantar e não demorou muito até ele reparar em mim. Tencionava atrai-lo e levá-lo para um remoto sítio da praia onde o pudesse possuir, para, após ter saciado essa necessidade, me alimentar do seu atraente corpo.

Remou, com as mãos, até mim. E quando nos encontrámos frente-a-frente, sorri-lhe, um sorriso sedutor, ao qual ele respondeu. Senti a sua mente corresponder à minha. Assemelhava-se a sintonizar uma estação de rádio e, quando sentia que estávamos na mesma  estação, soube que era tempo de agir.

Arrebatei-o da prancha, com uma única mão, puxando-o pelo pescoço. Ele colocou as mãos na minha cintura e eu soube que ele estava demasiado encantado, para sentir, quando o mergulhei comigo na água revolta do mar.

Nadei com ele, para mais perto da costa, aproximando-me de uma pequena enseada da deserta praia, onde se chegava apenas por mar. Tentei vir à superfície, para que ele não caísse na inconsciência. Não o queria inconsciente. Queria-o exactamente como estava.

Levei-o para a pequena enseada e subi à terra.

Não o fazia há muito. Sempre me foi estranha a sensação de possuir pernas em vez de uma cauda. Aqueles membros eram-me esquisitos. Torcidos e não respondiam bem aos meus comandos.

Deitei-o na fina e dourada areia e cobri-lhe o corpo com o meu, já nu. Comecei a retirar-lhe o estranho fato justo e preto, enquanto lhe acariciava os seus lábios com os meus.

Estava quase a terminar a minha dificultada tarefa, quando ele me abriu os olhos castanhos e me fitou, com um misto de maldade e terror. E, de repente, senti uma dor agonizante num daqueles estranhos membros. Quando olhei para a minha perna, o sangue escorria por ela a baixo. Rapidamente, percebi porquê: um punhal tinha sido espetado nela.

Ele tinha-me espetado um punhal.

Isto não ia correr bem…


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publicado por Jessie Bell às 16:22
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so many mystic stories (7):
De i. a 28 de Outubro de 2011 às 20:16
posso só perguntar de onde és e que idade tens? :) beijinho 


De Inêsquecível a 28 de Outubro de 2011 às 17:30
Estou adorar os textos, como sempre :)


De allison granger a 27 de Outubro de 2011 às 20:46
era uma pergunta retorica, nao era suposto teres respondido.


De Inêsquecível a 26 de Outubro de 2011 às 21:59
LINDO! Estou a adorar!


De allison granger a 26 de Outubro de 2011 às 19:11
vai para o msn.


De Andy Agrela. a 25 de Outubro de 2011 às 21:00
- já sigo :)


De Mars. a 25 de Outubro de 2011 às 20:48
já te sigo novamente :)


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