Sábado, 29 de Outubro de 2011
Capítulo 3 - O meu nome é...

O cheiro a chuva invadiu-me a mente. O cheiro a chuva invadiu-me a mente? Como é que o cheiro a chuva me invadiu a mente? Oh, Deus, eu não estava morta.

Não tive a coragem necessária para abrir os olhos. Não me mexi, com medo que algo de mal me acontecesse, apesar de não saber o quê.

Não estava na areia, não a sentia debaixo do meu cansado corpo. Não ouvia o mar. Deduzi que não estivesse na praia. À minha volta nada ouvia, senão o surdo som da chuva miúda a cair no chão. Mas não estava molhada.

Talvez estivesse de facto morta. Talvez estivesse no purgatório… Ou no inferno.

Tinha ouvido falar destes sítios, durante toda a minha “vida”. Porém, sempre me disseram que eles me seriam negados, por não possuir alma.

Sabia que todas as minhas dúvidas seriam esclarecidas no momento em que abrisse os olhos, mas não estava predisposta a enfrentar a incerta realidade. Estava a apreciar o estado de dormência em que me encontrava. Era estranhamente agradável.

Desejava permanecer assim, enquanto a eternidade mo permitisse. No entanto, um som estrídulo de algo a cair, ateou os meus sentidos, fazendo-me abrir os olhos, num acto reflexo.

A tinta de um idiota e demasiado caloroso beije creme cobria as várias paredes da acolhedora divisão em que me encontrava. Olhei à minha volta apenas para decifrar que me encontrava depositada num confortável sofá de cor castanha, vestida com uma camisola em que quase me “afogava”.

Não sabia onde estava. Mas não estava atemorizada, perante tal constatação. Estava confortável. O leve som da chuva lá fora confortava-me, assim como a manta laranja que vi que me enrolava o dorido corpo.

Fechei os olhos pronta para voltar a emergir no meu estado de dormência, que se revelara mais cómodo do que nunca. As seirens não dormiam muito e era agradável que, por uma vez o pudesse fazer, sem preocupações.

Não sabia se estava morta, nem viva. Não queria saber. Não me interessava minimamente, desde que pudesse continuar como estava.

Perguntava-me por quanto tempo poderia continuar assim. Com certeza, aquilo não seria permanente. Nada nunca era permanente. E, por muito que quisesse aproveitar o leve e agradável descanso do meu ser, não conseguia deixar-me de inquirir, no meu futuro.

Vi-o o entrar e o frio percorreu o meu corpo, como se no oceano glaciar, me encontrasse. Aquilo não era bom.

Ele disse que ia fazer o prometido. Não era justo! Eu só queria morrer... Só queria estar no meu eleito estado de dormência. Porque é que não o podia fazer? Porque razão é que tinha de ser forçada a viver naquele sofrimento que me era causado, pela simples razão da minha insignificante existência?

- Acordaste? – Perguntou-me, com uma subtil expressão de espanto. Porque é que os humanos têm o irritante vício de perguntar, aquilo que já sabem como certo?

O homem, que conhecera na praia, dificilmente era reconhecível no humano que agora se apresentava à minha frente com uma expressão relaxada, como se um ser mítico não estivesse estendido no seu confortável sofá. Talvez o estivesse, por estar no seu próprio território. Ou então simplesmente não sabia do que eu era verdadeiramente capaz.

- Não cumpriste a tua promessa – acusei-o, cuspindo todas as palavras, na esperança de que ele tivesse o mínimo apresso pela sua honra. Ele sorriu-me vagamente e a vontade de o matar apoderou-se novamente do meu ser.

- Não fui capaz, lamento. Tu perdeste os sentidos e eu pensei que morreras – disse sentando-se numa poltrona que fazia par com o sofá. – Ia arrastar-te para a água, tal como me pediras. Mas no momento em que estava para o fazer, ouvi o teu coração bater. Não te ia deixar para morrer.

- Eu queria morrer – disse-lhe rispidamente.

- Porquê? – Perguntou-me, com um leve estado de choque.

- Porque por vezes a vontade de morrer subjuga a de viver. Porque quando perdes todo e qualquer sentido da tua vida, aquilo que fazes com a tua insignificante e ridícula existência deixa de poder ter o nome “vida”. Deixas de viver, para sobreviveres, como podes, quando podes. Eu não quero lutar por uma coisa que nem sequer possuo.

- Tu não conheces o futuro. Não sabes o que Deus te reservará se enfrentares e lutares contra todos os obstáculos que estão à tua frente – disse, com uma voz insípida, como se me estivesse a explicar que a soma de um, com um, é dois.

- É te assim tão difícil entender que eu não possuo qualquer tipo de hipótese perante Deus, ou Atargatis, ou qualquer outros ser superior? É te assim tão difícil entender que eu não possuo nada que me defina como ser? É te assim tão difícil entender que eu não tenho alma? Que nunca vou poder fazer algo bem, ou mal, porque nunca terei noção daquilo que estou a fazer? Eu nunca odiei, mas também nunca amei. Nunca senti a tristeza, nem a felicidade irromper-me do coração. Eu nunca senti a verdadeira dor, se não a física. Eu nunca soube o que é sentir saudade de alguém. Eu sou apenas um corpo, um corpo belo, é facto, mas não passo disso, não tenho mais sentimentos do que este sofá. Por isso diz-me? Porque é que eu, por uma vez, não posso estar na condição que sempre me foi destinada. Porque não posso morrer? Porque é que vou lutar por algo se sei que vou perder. Eu não aguento mais quinhentos anos disto. Eu não aguento não conseguir reagir. Não conseguir sentir com o coração.

- Deus nunca criaria uma criatura tão bela e não lhe daria uma alma… - proferiu, acocorando-se à minha beira e levantando-me com um dedo, o queixo que me estava apoiado no braço do sofá.

- Posso-me ir embora? – Perguntei-lhe, ignorando o seu gesto. Se ele não me matava, eu era capaz do fazer sozinha, achava. Nunca tinha visto uma seiren matar-se. Éramos um povo feliz. Isso não acontecia.

- E se eu não o permitir? – Perguntou-me, em resposta, com um sorriso provocador.

- Desculpa. Eu volto a reformular a pergunta: Posso-me ir embora, sem ter de me dar ao trabalho de te matar?

Nem por uma vez a sua cara contorceu-se numa expressão aturdida, e, por isso, um leve toque de choque, foi levado à minha rosada face. Em vez de se mostrar assustado, perante a minha ameaça, puxou novamente do punhal e apontou para uma espingarda de canos serrados, que estava encostada à poltrona, em que se sentara.

- Aposto que a agarro mais depressa que tu – disse-me, sorrindo um sorriso aberto.

- Como é que sabes que as tuas balas me afectam? – Perguntei, entrando no seu ridículo e temeroso joguinho.

- Deduzo que, se um simples punhal te faz quase morrer, uma bala matar-te-á, com certeza, por muita pena que mo dê fazê-lo.

- Eu sou mais rápida que tu. Provavelmente, sou mais forte também. Os meus dentes cortam mais do que 10 dos teus punhais. Não me subestimes. Mas fá-lo, por favor. Dá-me um tiro e assim eu terei o que eu quero.

- Não! – gritou, exaltado. – Não o farei! Não te vou matar, quer o queiras, quer não. Se me atacares, eu  lutarei pela minha vida. Tal como tu devias fazer, pela tua.

- Isso quer dizer, que posso partir em paz? – Perguntei-lhe, tentando dar ao meu rosto uma expressão esperançosa.

- Sim – suspirou.

Num movimento ágil, levantou-se a si e a mim, puxando-me pelo braço e arrastando-me do confortável sofá. Arrastou-me sala fora, até entrarmos num pequeno vestíbulo, que condizia harmoniosamente com a sala, em que dormira. Ainda sentia a minha perna a latejar e coxeei, pelo caminho todo. Ele olhou para mim e, apesar de tentar manter uma atitude altiva, não deixava de transparecer alguma da pena e culpa que sentia, quando olhava para ligadura que agora cobria a ferida, sem eu saber como lá tinha ido parar.

Abriu a pesada porta de madeira escura num movimento brusco e irado e olhou para mim, com a mesma expressão entorpecida. Com o dedo indicador apontou para a rua e eu saí, cambaleando. Fechou a porta atrás de mim num som que me fez estremecer, muito antes de eu poder dar mais de três passos. A chuva caía por cima do meu cabelo cor de fogo e eu senti o arrepio do frio a correr-me a coluna vertebral.

Não sabia para onde ir, por onde ir. Não sabia o que fazer. Com certeza, não ia voltar e pedir-lhe que me albergasse…

Fiquei ali, à espera, acabando completamente ensopada.

- Sabes, eu gostava dessa camisola! – Exclamou ele, atrás de mim. Olhei-o, num relance furioso e nada disse. Voltei-me de novo para a estrada betumada que rodeava a pequena casa de um piso, cor da terra. Ele colocou a sua mão, num dos braços, que estavam cruzados e fez-me girar, para que o fitasse. – Volta lá para dentro, sereia – pediu-me com um olhar de esperança.

- Não! – gritei. – Nem sei o que é que ainda faço aqui – disse, encaminhando-me para estrada para começar a andar.

- Tu nem sabes em que cidade estás… - Disse, desacreditando-me.

- Eu não preciso de saber onde estou, para fazer o que quero.

- De qualquer modo, diz-me, uma última vez, antes de partires: Se te julgas um ser não possuidor de alma, porque é que não me mataste, quando entrei na sala, ao acordares. Porque é que não o fazes agora? Eu digo-te porquê. Porque eu salvei-te a vida. Porque sentes em dívida e o teu intimo acha que te sentirás triste e culpada se me ceifares a vida.

Olhei-o atónita, perante o facto de ele ter descoberto algo, que nem eu sabia. O que é que ele me queria dizer afinal? Não, eu não o queria matar. Mas não sabia se as razões, para tal, eram aquelas que ele me descrevera.

- Dois meses – disse-me, já com o cabelo a escorrer água emoldurando-lhe o rosto forte. – Prometo-te, com a minha honra, que, em dois meses, te mostrarei que não és um corpo vazio e desprovido de sentido. Mostrar-te-ei que possuis alma, assim como todos os mais ínfimos seres, sereia.

- Adriadne – suspirei. Ele olhou-me confuso, como se eu tivesse falado numa língua que não a sua. – O meu nome é Adriadne – voltei a dizer. – Não é sereia. – Disse-lhe, enquanto entrava de novo na acolhedora casa.

Ele lançou-me um enorme sorriso cor do cal e limitou-se a respirar:

- Ivan. – E fechou a porta.

 

 


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publicado por Jessie Bell às 00:31
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