Sábado, 29 de Outubro de 2011
Capítulo 5 - Escrita

Olhei-o incrédula, perante aquela crua afirmação. Aquela lágrima, aquela história, tudo aquilo: não era suposto ter acontecido.

Nunca havia chorado, por algo mais se não a pura dor física, que em tempos me foi cruelmente incutida devido à minha “maldição”. Mas isto não se tratava de dor física. Não chorava pelo leve desconforto que me era causado pela minha perna entorpecida. Era algo mais. Algo inexplicavelmente doloroso, que me fazia sentir repulsa de mim mesma. Algo que Ivan tinha apelidado de “culpa”. Não sabia o que era… Apenas sentimentos “bons” tinham me tentado incutir, nada mais.

Recuei da sua figura que se contorcia numa expressão tristemente desoladora.

Novamente, queria sair dali. Evaporar-me na esperança de que as nuvens me repusessem no meu precioso mar. Mas não o fiz, com medo de que aquele sentimento que rugia dentro de mim, me consumisse por completo.

- O que é que isso é? – Perguntei-lhe, na mais néscia tentativa de me entender.

- A culpa refere-se à responsabilidade dada a alguém por algum dano – disse com a voz fria como o gelo.

- Não fui eu que os matei – proferi rispidamente. Disso tinha a certeza. – Eu não causei qualquer dano.

- Podes não ter sido tu, mas foram as tuas que o fizeram. Sentes-te mal com isso, é compreensível.

- Não! Não foram! – gritei, como se ele não me estivesse ouvir. – Isto não é possível! Nós… Nós nunca faríamos isto. Nós temos regras, Ivan. Nós não matamos crianças, nem mulheres. É contra as nossas crenças. Mataria a vossa espécie se o fizéssemos.

- Queres explicar-me o que é que aconteceu, então? – Perguntou-me, olhando as aterradoras lápides caiadas.

- Não sei – admiti. – Mas tens de entender  que, tal como vocês, nós vivemos numa sociedadee estruturada. Temos uma governante e todas nós devemos-lhe lealdade. Há regras, se essas regras forem quebradas, existirão consequências. Graves consequências.

- Tais como? – Perguntou-me, por pura curiosidade.

- Não sei. Nada como isto alguma vez aconteceu. Nós só matamos para comer. E nós não comemos mulheres e crianças, é nos impossível de forma anatómica. Mudaríamos.

- Como assim, mudariam?

- Quando comemos carne que não devíamos, nós mudamos. A nossa cara fica cravada por entre rugas vincadas e os nossos dentes ficam… como se estivéssemos para sempre prontas a atacar. Nunca vi nenhuma seiren assim. Porque nunca nenhuma seiren se atreveu a fazer tal coisa!

- Adriadne – disse, tentando acalmar-me – não digas que algo é impossível, sem conhecer todos os aspectos. Anda, vamos para casa.

Segui-o de volta à afável casa e assim que entrámos fui atingida com mais uma carrada de perguntas:

- Quando tempo é que vais poder ficar sem comer? – perguntou-me, num vago sorriso intrigado.

- Não muito tempo. Mas ainda não posso voltar ao mar. Não com a perna assim. Talvez mais uns dias – admiti, penosamente. – Mas vou precisar de beber água salgada.

- Já tinha tratado disso – e assim, saiu da sala, para voltar apenas alguns segundos depois com uma grande garra transparente que me entregou, para as mãos.

 Desenrosquei a tampa azul da garrafa transparente e levei-a rapidamente à boca saciando a minha sede fugazmente.

- Vais caçar um humano? – Perguntou-me tristemente.

- Eu preciso de me alimentar, Ivan.

- Eu sei. Mas tu própria o disseste, Adriadne, tu podes comer outros animais. Por favor, não o faças enquanto tiveres comigo – pediu-me, num tom quase revoltado.

- Posso perguntar-te uma coisa, Ivan – disse, tentando fugir àquele pedido, para o qual não tinha resposta.

- Diz…

- Tu dizes que as seirens mataram a tua família. Tu estás sozinho – disse, procurando uma confirmação, que me foi dada por um aceno. – Então, porque é que me disseste para focar contigo, se foi uma igual a mim que os matou?

- Tu não és como os outros seres – disse, aproximando-se de mim. – Não sei como to explicar. Há algo em ti, Adriadne. Algo inexplicável, que ultrapassa a tua inabalável beleza e todos os actos errados que já cometeste. Há algo que orbita à tua volta. Talvez seja pelo facto de nunca antes teres sentido. Quiçá seja por nunca teres magoada, ou sido magoada… Ou talvez pelo simples facto de me intrigares. Sabes o que isso é, a intriga? – Assenti, num movimento de cabeça seco. – Bem tu intrigas-me, Adriadne. E, não sei porquê, eu acredito no que dizes.

Olhei os seus belos olhos castanhos e uma vontade louca apoderou-se de mim, fazendo-me enrolar os meus braços à volta dos seus largos ombros, num abraço apertado. À primeira, assustou-se, mas não demorou muito até também ele enrolar os braços musculados à minha volta, num estranho abraço.

- Nunca ninguém acreditou em mim – admiti, cruamente, como se essa fosse a mais certa razão do mundo.

Ele olhou-me e sorriu-me, assegurando-me da sua confiança, que, por nenhuma razão tangível, tinha sido depositada em mim.

- Tenho uma coisa para ti – proferiu, ainda com um sorriso.

Nas minhas mãos foi depositado, em menos de um minuto, um livro grosso e empoeirado, revestido por um capa dura forrada a tecido verde pálido, com pormenores pretos e anafados

- O que é isto? – Perguntei-lhe, intrigada.

- É um dicionário – disse, simplesmente.

- O que é que é um dicionário? – Perguntei-lhe, revelando a minha significativa ignorância, perante os objectos humanos.

- É um livro que tem o significado de todas as palavras conhecidas. Sabes ler?

Abanei a cabeça negativamente.

- O que é um livro?

- Vocês não têm livros, lá em baixo? – Perguntou-me, esperando saciar a sua curiosidade.

- Nós temos música – admiti.

- Bem um livro pode ser muitas coisas. Pode contar uma vida, uma aventura, uma história.

- Podes ler, para mim – pedi-lhe, com a voz sôfrega.

Retirou-me o livro das pequenas e pálidas mãos e, após escolher uma página de forma minuciosa, percorreu-a com um dedo, até se fixar numa única palavra.

- “Alma – começou, de forma solene – princípio da vida e  do pensamento; parte imaterial do ser; princípio espiritual em oposição a matéria.”

Quando acabou, fechou o grande e pesado livro, num som seco e voltou a sair da sala, tirando que desta vez segui-o, por um estreito corredor enfeitado com inúmeros quartos e gravuras. Entrámos numa divisão, significativamente mais pequena, rodeada de inúmeras estantes, entulhadas de livros de todas as cores e formatos. Encostada a uma parede, onde figurava uma grande janela, com vista privilegiada para o mar, estava uma escrivaninha, do tempo das caravelas, onde se depositava uma pequena máquina que desconhecia.

Percorri a pequena divisão, tentando engolindo-a num só olhar.

- Vejo que gostas de livros – disse, mirando as imponentes estantes dos séculos passados.

- São a minha vida – proferiu, enquanto voltava a colocar o dicionário na prateleira a que pertencia. – Na verdade, eu não me limito a lê-los. Também os escrevo.

- É para isso que aquilo serve? - Perguntei-lhe, apontando para a estranha máquina azul clara.

- Sim. É uma máquina de escrever – disse-me, com um sorriso.

- Foram todos escritos por ti? – Perguntei, apontando paras as vastas estantes.

Ele riu-se, contidamente, enquanto abanava a cabeça negativamente.

- Claro que não. Apenas estes - e retirou dois, de uma prateleira mais baixa, num lugar remoto, como se estivessem escondidos. Um era francamente anafado, coberto por uma película e com uma imagem daquilo que seria um seiren.

Olhei-o embasbacada, esperando que ele me explicasse.

- É sobre a minha família – disse, calmamente.

- Sabes que isto não é uma serein, a sério – disse, apontando para a capa. – Nós não temos joelhos debaixo de água.


tags:

publicado por Jessie Bell às 00:33
link do post | Write a mermaid story | favorito

Janeiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


Janeiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


arquivos
mais sobre mim