Sábado, 29 de Outubro de 2011
Capítulo 7 - Tentação

- Porquê? – Perguntei-lhe, com um exagerado nível de incredulidade.

- Porque… - remeteu-se ao silêncio.

Virei-me para o fitar. Talvez assim ele se confessasse.

- Porquê? – Voltei a perguntar-lhe.

Nem uma palavra fugiu dos seus lábios acetinados.

- Porquê? – Perguntei, uma e outra vez, até que agarrei o seu pescoço, fazendo com que me fitasse. Recusou-se. Assim, com a outra mão virei-lhe o queixo, alinhando-o com a minha cara. Não demorou muito até ele penetrar os meus olhos azuis e profundos, com os seus.

- Porquê?

Soltou os meus braços num movimento ímpeto e saiu dali batendo a porta da casa de banho azul. Ouvi, poucos segundos depois, outra porta a bater.

Saí da pequena divisão, ao acabar de enfiar uma camisa, de manga curta, florida, de um verde pálido e enojante.

Endireitei-me e fui para a sala, tentando esquecer tudo aquilo.

O silêncio invadiu a casa, porém, não completamente. Um leve tiquetaque surgia da divisão atafulhada de livros, que ladeava a sala.

Peguei no livro, que ele estava a ler esta manhã. Sabia que não conseguiria ler. Porém folheei-o, página, após página, divertindo-me apenas com os sublinhados e rabiscos que ele havia feito na margem das páginas.

Passaram-se horas e a noite caiu no lado oposto, por onde a manhã se havia levantado majestosamente. Enrosquei-me novamente debaixo da quente manta laranja.

O sono apoderou-se de mim.

Acordei com o mesmo tiquetaque, com que havia adormecido. Algo se agitou dentro de mim. Estaria ele bem?

Levantei-me do sofá e dirigi-me à porta da sala dos livros. Rodei a maçaneta de metal escuro. Porém a porta não abrira. Ele trancara-se lá dentro.

Suspirei, no entanto, não fora bem um suspiro. Bufei.

- Ivan! – Chamei, bem alto.

Nada o tiquetaque das teclas premidas continuava incessantemente.

Voltei a chamar. Outra vez e outra e mais uma. Nada.

- Ivan – gritei. Batendo veementemente na porta maciça. – O que é que se passa aí dentro? Estás bem?

Nem uma palavra.

- Ivan! – gritei, ainda mais alto. – Se não abres a porta vou-me embora.

O tiquetaque parou.

- É isso mesmo, Ivan! Se não abrires esta porta imediatamente, eu vou sair desta casa e vou-me matar.

O tiquetaque recomeçou. Não tinha sido convincente o suficiente.

- Ivan! – Voltei a bater na porta. Se se tornasse necessário derrubá-la-ia em menos de três segundos. – Vou escrever a minha nota de suicídio. – Ups, não sabia escrever. – Bem, escreve-la tu! Querido Ivan… Não, não. Risca o querido, porque estás a ser um estúpido! Estúpido Ivan, vou-me matar. A culpa é tua. Fica ciente disso. Adeus. – Uma grande pausa e a porta manteve-se fechada. – Vou-me embora, Ivan – avisei-o. – Obrigada por nada.

Fui até ao vestuário e abri e fechei a grande parte castanha, sem sair da casa. Passou-se uma boa meia hora e nem um ruído saiu daquela sala trancada.

Desesperei. 

Saí da casa e dei a volta por um pequeno passadiço de lajes, que rodeava a casa. Rapidamente encontrei a grande janela que iluminava a sala das estantes.

Sentado à escrivaninha e envergando ainda a mesma roupa do dia anterior, Ivan escrevia a uma velocidade alucinante. Folhas brancas rodeavam a pequena máquina de escrever dando um aspecto desarrumado ao local e uns óculos de hastes finas equilibravam-se no seu nariz, apenas para acentuar a sua profunda concentração.

Bati forte no vidro, quase ao ponto de o partir. Nem um relance. Nem um olhar. Nem um movimento que denunciasse o seu saber, perante o facto de eu ali estar.

Arrastei-me de novo para dentro de casa. Bati com a porta. Bati com tudo o que encontrei. Até que cheguei à porta da sala dos livros. Rodeia maçaneta. Como antes, estava trancada. Porém nem, o seu tranque não me demoveu. Continuei a forçar. Não necessitei de toda a minha força para a fazer estalar uma e outra vez, acabando por ficar na minha mão. E agora, que a porta estava desprovida de maçaneta, um único pontapé foi o necessário para quebrar o que restava da fechadura, dando-me, por fim, acesso ao interior daquela frustrante divisão.

 Os seus dedos continuavam a premir as teclas pretas da máquina azul, sem, por uma vez, desviar o olhar. Passaram-se longos minutos, enquanto o olhava da ombreira da porta meio destruída.

- Ivan! – chamei-o. Nada.

Em paço apressado dirigi-me até ele e, apesar da cadeira, condizente da escrivaninha, não possuir rodas, fi-la girar sob o chão, deixando graves marcas no chão envernizado.

Olhou-me.

Pela primeira vez desde que me abandonara naquela casa de banho, olhou-me.

Os meus olhos vaguearam pelos seus à procura de algo, apesar de não saber bem o quê.

- Então, o que é que estás a fazer? – Perguntei-lhe, percebendo apenas muitos segundos depois o quão desapropriado tinha sido, em relação ao pesado ambiente que nos envolvia.

Fitou-me na maior das surpresas.

- Estive a escrever – disse, simples.

- A sério?! Porque a mim pareceu-me que te escondias de mim – acusei.

- E porque é que eu haveria de fazer isso? – Perguntou-me e eu aproximei mais o meu rosto do seu.

- Eu acabei de arrebentar com a tua porta. Devias ter mais medo de mim – aconselhei-o.

- Vais ter de arranjar aquilo – e olhámos para a porta desfeita, por entre pequenas lascas e buracos (talvez a tivesse pontapeado com demasiada força). – Até o pior dos monstros pode ser destruído com as mais simples palavras – rezou, como uma lição filosófica.

- Estás a chamar-me um monstro, Ivan?

- Foi isso que eu disse? – Perguntou-me com uma falsa surpresa marcada na voz grave. – Senta-te – e apontou para uma pequena poltrona num dos remotos cantos da sala. – Eu mostro-te o que estava a falar.

Pegou em todas as folhas em grande parte das folhas amontoadas em cima da sua mesa e, num movimento calculado, virou-as. E começou:

- “Sentado na cadeira almofadada de uma das mais conceituadas esplanadas da cidade madrilena no ultimo piso de um arranha-céus, a vista estendia-se até ao leve cinzento das nuvens com curiosas pinceladas de laranja. Para além dos diversos edifícios, não tão altos como no que ele se encontrava, intercalados por largas ruas com três vias e rotundas, marcavam um estilo marcadamente histórico e cosmopolita e, embora fosse hora de ponta, não ouvia na esplanada o tráfico dos carros. As pessoas, com as horas contadas para deslumbrar a beleza que se disponha à frente dos seus narizes, não ultrapassavam a cabeça de um alfinete. Involuntariamente o seu olhar perde-se num ponto preto. Imagina ser Joana. O cabelo ruivo bem curto, a maquilhagem carregada, o ar sonhador dos cinzentos olhos, o seio bem generoso... Tinha de parar de fantasiar a mulher que em tempos amara apaixonadamente. Respirou fundo. Recordá-la era ainda doloroso.

Com um cigarro já nos lábios, descansado, riu-se do ridículo da sua vida. Aos 27, com sede de sangue, traçara um plano de tornar os últimos dias do anafado capataz da quinta nos mais dolorosos. Sob outro nome, facilmente conquistou a família Telles, afinal, era um rapaz bem falante sempre vestido das mais caras marcas e isso é que é que importava, as aparências. A pobre Sr.ª Telles, que Deus a tenha em eterno descanso, punha as mãos no fogo por ele. É rapaz trabalhador. Vê-se pela pinta que é de boas famílias. Ó filha, tu tens de o conhecer. Era um bom partido. Ora bem, esse dia chegou, o dia em que Manuel conheceu Joana, mas não apressemos a história. Manuel trabalhava como conselheiro financeiro da família, já tinha o livre arbitro para mexer no dinheiro e nos bens. Numa questão de segundos, podia-os por na miséria. No entanto, isso não chegava para cessar a sua sede de vingança. Queria os ver desesperados, completamente destroçados, que a morte seria vista como algo agradável. Tinha de os magoar no que lhes era mais sagrado. A filha. Tinha tudo preparado para o jantar. A sua pose, a sua voz, o seu discurso e até piadas. Queria deslumbrar a Filha com a sua faceta de rapaz novo-rico. Mal chegara, foi dirigido à biblioteca da casa com o pretexto de discutir negócios. Já passara uma hora, enfastiado, perguntava-se a si quando se iria livrar do aborrecido Sr. Telles e das suas teorias estapafúrdias de aumentar o capital quando a empregada os chamou à sala. Finalmente, fechara a hora. Endireitou, por fim, o smoking. A minha filha tem esta reacção nos homens. Sem perceber o que o velho dizia, encolheu os ombros. Põe-nos nervosos e riu-se perdidamente com a sua própria piada, enquanto Manuel ficou ainda mais desconfortável. A minha filha teve um percalço. Já desce, esclareceu a Srª Telles.

Quinze minutos depois, num andar de bailarina rompe pela sala. Joana. De 1,70m de cabelo apanhado sem maquilhagem, cumprimenta o embaraçado Manuel. Não sabia o que lhe desagradava mais. Joana ser uma mulher incrivelmente atraente ou ser filha exactamente do homem que mais odiava neste mundo. Durante o jantar, Manuel não descontraíra mesmo sendo alvo de piadas constantes do velho. Os olhos cinzentos da moça flutuavam na sua cabeça dias após o encontro. Não conseguia ver nela os defeitos que via nos outros elementos da família. A pele clara de Joana era sinal da sua pureza de espírito. E a sua simplicidade ao vestir... era evidente na cabeça de Manuel que ela ditava-se por valores diferentes dos pais. Tinha de a conhecer. Tinha de comprovar se os seus pensamentos a respeito de Joana estavam certos. Procurou-a no estúdio de pintura na baixa da cidade. Joana apareceu-lhe de cara pintada e roupa manchada. Estou a meio de um retrato, desculpou-se. Sob o pretexto de aprender apreciar arte, Manuel conheceu Joana. Ia lá todos os dias após o trabalho. Cada vez que ia mais atraído ficava por Joana. Aos poucos, nasceu uma cumplicidade entre os dois. Gostavam de partilhar o serão juntos. Joana, confusa por Manuel nunca tomar nenhuma iniciativa. Sempre cuidadoso nas conversas e nos actos. Ao contrário de outros homens, nunca a tentara beijar ou mostrara algum comportamento indicador de algum interesse. Isso dava em doida Joana habituada aos piropos. Um dia, sem quê para quê, perguntou-lhe. Porque que me visitas? Manuel riu-se da estúpida pergunta. Por tua causa, porque gostar de estar contigo. Ainda não saciada, a curiosidade Joana continuou, Tu gostas de mim para passar o tempo ou para algo mais? Manuel surpreendido com a falta de vergonha latente no tom de Joana, Joana, estou aqui porque gosto de ti. Então porque nunca me beijaste ao fim deste tempo todo? Manuel respirou fundo. Joana estava com os nervos em franja. Manuel não precisava de fingir um eventual interesse nela. Resolvida a terminar com a fantochada, levantou-se. Se não te sentes atraído por mim, não tem mal. Manuel, incrédulo, Joana era a mulher que amava como ela não podia ver isso. Só porque nunca te beijei, não significa que não te ame.”[1]

 - O que é que acontece depois? – Perguntei, encostando os joelhos ao peito.

- Como assim? – Perguntou-me, surpreso.

- Bem… Isso não pode acabar aí. Ele matou os pais dela? Ou arruinou-os? E, porque é que ele os odiava? Ele beija-a? Se eles ficarem juntos, ela não acabará por saber que ele arruinou, ou matou os pais dela? Não vai gostar muito disso.

- Estás a ver – disse, com um tom de quem me apontava uma lanterna. – Acabei de te causar dúvidas. Tu podes causar dor física, com a tua força sobrenatural e eu posso causar-te dor com as minhas palavras, tal como ainda agora te causei dúvida. Talvez a tua maneira seja mais imediata, mas acredita em mim quando te digo que a minha pode ser muito mais poderosa – e sorriu-me, um sorriso malicioso. – O que mais descobriste neste texto, Adriadne? – Perguntou-me, com o mesmo sorriso constrangedor.

- Sou eu, não sou? – Perguntei-lhe, juntando as peças daquele que seria um simples puzzle. – A Joana, sou eu, não é? A tez marmórea, o cabelo ruivo, o andar ligeiro. O pai odiado e mãe néscia. A falta de paciência e a habituação à atenção masculina.

Ele olhou-me, como quem me dizia para prosseguir:

- E eu sou a tentação, não é? – Perguntei, para uma resposta que não recebi. – E tu és a vítima. A vítima da tentação em que te subjugo. Hoje tentei-te, uma e outra vez. E tu sentiste-te vitimado, não foi? – A sua cabeça pendeu para o seu peito, impedindo-me de lhe fitar os olhos. – E agora, resta saber… Porquê?

Levantei-me da poltrona que condizia com a máquina, onde Ivan escrevia com grande engenho. Também ele se levantou e estagnámo-nos, com um metro a separar-nos.

- Porquê, Ivan? – voltei a perguntar-lhe.

- Porque, se eu te beijar… Outros sentimentos vão se despoletar. Sentimentos esses que eu preciso de guardar.

- Porque é que o tens de guardar?

- Eu já fui incrivelmente magoado, Adriadne. Eu já fui magoado pelas tuas gentes. Eu não conseguirei aguentar muito mais…

- E porquê complicar as coisas? – Perguntei-lhe. - Os sentimentos são sobrevalorizados. Porque não ficar pelo que é físico e simples?

Aproximei-me dele, acabando com a distância que nos separava.

Esperei que ele me beijasse. Não por ter medo de tomar a iniciativa, como tinha feito outras tantas vezes, com outros tantos homens. Mas a diferença marcaria este momento. E assim, gentilmente, Ivan puxou o meu rosto para o seu e, num pequeno movimento de pura perfeição, os seus lábios cobriram os meus e as nossas línguas seduziram-se e eu fiquei saciada.

 



[1] Excerto escrito por copo de leite (www.copodeleite.blogs.sapo.pt)


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