Sábado, 29 de Outubro de 2011
Capítulo 9 - Lua

O sabor da culpa ainda me ardia na boca, como o mais aceso dos fogos.

Se algo restava da minha alma inexistente, esse resto fora reposto por monossílabos frios e crus, que somente eram proferidos, em extrema necessidade.

- Toma – disse, estendendo-me uma garrafa com água salgada, ainda a gotejar.

Estávamos na praia. Tinha-me convencido a ir lá fora, “para apanhar ar”, tal como dissera.

O som das ondas calmas, ecoava na minha cabeça, enquanto os meus pés pálidos se enterravam na areia agora escurecida, pela negrura da noite. Abracei os joelhos, após ter tomado umas boas goladas, da garrafa transparente, e afaguei a pequena e rosada cicatriz que agora desfigurava a minha perna.

Fechei os olhos.

- Não foste tu – disse ele.

- Não foste tu, Adriadne – repetiu, com mais veemência.

- Não fui eu – disse baixo e cabisbaixa.

Apertou-me nos seus braços musculados, num abraço desajeitado, ao qual não tive coragem de corresponder.

- Ela não… - sustive a respiração, engolindo o ar que ainda estava na minha boca. – Eu devia tê-la matado – acabei, por dizer, fitando-o na escuridão da noite. - Vi a pele do seu pescoço arrepiar-se, por debaixo da fraca luz da lua e ele fitou os meus olhos com tal incredulidade, que um frio imenso percorreu o meu corpo.

- Tu não vais matar ninguém, Adriadne – assegurou-me.

- Ela merece morrer, Ivan. Ela… Como é que não compreendes? Depois do que fizeram à tua família? Eu nem devia existir – disse.

Olhou-me tristemente. Soube que ele concordava comigo, quando eu dizia que a minha existência é ridícula.

- Fiquei feliz, por teres voltado – acabou por dizer, numa tentativa frustrada de aligeirar o pesado ambiente.

Sorriu-me e nesse mesmo sorriso eu me perdi. Num breve momento, esqueci tudo que atribulava a minha temporariamente incapacitada mente e um leve sorriso desenhou-se sobre os carnudos e rosados lábios, enfeitando a minha cara.

Tu fazes-me feliz, Adriadne. Logo, és importante. Serás sempre importante.

- Eu terei de partir, um dia.

- E isso não te tornará menos importante. Assim, promete-me que te lembrarás, sempre que estiveres a pensar na tua insignificância, que um dia tornaste um homem muito feliz.

Agarrou a minha cara, num gesto suave e tomou os meus lábios, deixando-me provar o sabor perfumado da sua língua.

- Porquê? – Perguntei, quando os nossos lábios se separaram, num “chuac” audível.

Ivan levantou uma das suas sobrancelhas, perfeitamente arqueadas.

- Eu nunca fiz ninguém feliz. Tudo o que eu algum dia trouxe foi desilusão e tristeza e miséria. Não há nenhuma razão plausível, que me faça imaginar que poderia alguma vez fazer-te feliz. 

- A felicidade não é algo plausível. Não é premeditada e, por muito que nos esforcemos, esta pode ser derrubada em segundos. Mas a felicidade provém dos pequenos momentos. Não podemos esperar por grandes gestos, para nos sentirmos felizes, pois esses podem nunca acontecer.

- És um homem feliz? – Perguntei-lhe – Mesmo depois de tudo pelo que já passaste?

- Sim – disse, confiante.

- Como é que sabe? Ser feliz… Como é?

Sorriu-me abertamente e começou, com alguma solenidade:

- O mundo tem outra cor, acho. Aprecias o bom e o mau. É como gostares da chuva e do sol, ao mesmo tempo. Deixas de te importar com os pormenores e focas-te apenas no cenário geral. Tens a certeza de que o sol se levantará no dia seguinte, por muito mau que tenha sido o dia antecessor. Nos momentos mais vagos, encontras a felicidade. E mesmo que o teu rosto não esteja a desenhar o maior dos sorrisos, sabes que se passares com a tua língua, pelo interior dos teus lábios, encontrarás uma pequena curva do início de um sorriso e, só esse pequeno gesto, te fará esboçar o maior dos sorrires. E isso é ser feliz. Não te vou dizer que é fácil, porque nada é fácil. É bastante difícil lembrares-te da tua felicidade, quando algo de muito mau acontece. É difícil sorrires, quando pensas que o holocausto chegou à tua vida…

Olhei de novo para o chão. Sabia, no meu íntimo que nunca, num milhão de anos, saberia qual seria essa sensação, que me era descrita com tanta agradabilidade.

- Tu saberás um dia, qual é a essa a sensação – disse, como se esforçasse-se para contrariar a minha mente.

- Por favor… - pedi-lhe com um sôfrego nos olhos. – Não me mintas.

De novo, enrolou-se á minha volta num abraço. Repeti o gesto amável e deixei-me ficar, sob o agradável calor do seu corpo.

A lua brilhava no seu meio esplendor. Em breve, seria a lua cheia a iluminar as noites sombrias, profanadas com os mitos do mal inexistente (ou não).

- Terei de voltar – disse. – Haverá um conselho. Em todas as luas cheias há um. Terei de estar presente, se não o fizer. Elas pensarão que eu não estou segura. Elas procurar-me-ão e não vão gostar disto – proferi, olhando os seus escuros olhos.

- Então terás de voltar – disse. Mas… Se elas te desgostam – disse, escolhendo as palavras com minúcia, tentando não ferir os meus “sentimentos”. – Porque viriam à tua procura?

- Vocês não compreendem. Não se trata de gostarmos, ou não gostarmos… Nada de isso interessa. Eu sou uma delas, assim serei protegida da mesma maneira. E é aí mesmo que os humanos falham.

- Qual é o problema então? – Perguntou, ao estudar o meu rosto. – Porquê o receio?

- Não se trata de medo. Simplesmente… - suspirei, perante a estúpida afirmação que iria proferir. – Eu não quero ir.

- Eu não quero que vás.

Por uma vez, o sono atingiu-me e as minhas pálpebras venceram-me numa batalha perdida, por início. 

 

Quando abri os olhos, para fitar a calorosa lareira, que confrontava o sofá castanho, onde dormia, nada de isso vi.

Em vez, eram os seus olhos que me fitavam. Os seus olhos brilhantes e castanhos, capazes de engolir o mundo, num só olhar expectante. Aprendeu o meu gesto num belíssimo contemplar e depois, afagou-me a bochecha rosada.

Tanto eu como ele, ainda vestíamos as mesmas roupas. Eu, uns calções azuis e uma t-shirt branca, e ele, uma camisola grossa e uns calções com um estranho padrão. Não era suposto eu estar ali. Sabia-o. No momento em que a tortuosa pergunta, do porquê da minha estadia na sua confortável cama, estaria para sair pelos meus lábios, segurei-a, pela evasão da coragem.

No entanto, por sorte, ou por azar, Ivan iniciou-se a responder-me:

- Não tive coragem de te deixar dormir naquele sofá velho – disse, com um leve desdém. – Além de que… Eu gosto de olhar para ti – disse com um grande sorriso.

Sorri-lhe.

- Nunca pensei que tal beleza poderia existir – disse, introspectivamente.

- Também tu és genuinamente belo – proferi, com um sorrir pendente nos lábios carnudos.

A risada que ele soltou, fez com que um agudo arrepio percorre-se a minha coluna.

- Penso que passaste demasiado tempo sem ver outro homem! – Exclamou, ainda soltando leves risadas.

- Isso não é de todo verdade - disse com franca incredulidade.

Um leve rubor subiu-lhe às maçãs do rosto e eu não consegui conter o sorriso, que se desenhou no meu rosto.

- Sempre pensara que a beleza óbvia era a única que interessava – comecei. – Mas agora, pela primeira vez vejo que… - sustive-me, por breves segundos. – As seirens à minha volta sempre me disseram que a paixão que elas sentiriam teria de ser à primeira vista. A verdade é que nunca entendera muito sobre sentimentos, muito menos sobre paixões, ou amor. Porém, agora desconfio que a base do seu discurso não era, de todo, verdade. As pessoas, os seres – corrigi. – Não vêem toda a gente da mesma maneira, pois não? É verdade que as pessoas se tornam mais belas, com base no seu conteúdo? Na sua alma…?

- Isso é verdade – concordou, com um sorriso.

- Então… Deverei corrigir-me: Tu és o homem mais belo em que já deitei os meus olhos.


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publicado por Jessie Bell às 00:39
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