Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012
Capítulo 13 - Confissões

 

Duvida que o meu discernimento estivesse intacto. Para dizer a verdade, as possibilidades de que tal se verificasse eram minúsculas. Talvez me arrependesse no momento em que mergulhasse no seu abraço. Talvez nem isso fosse preciso. Quiçá fosse apenas necessário voltar a vê-lo. Ouvir o som da sua voz, nem que fosse na forma de um murmúrio, camuflado por vozes de outros intransigentes humanos. Talvez isso me fizesse aterrar na dura realidade.

E, no entanto, continuei a nada em direção à costa. Continuei a nada em direção a ele.

A lua já tinha trepado aos céus quando avistei ao longe a sua pequena casa castanha. Quando me aproximei, logo ascendi das águas revoltas e um calor familiar invadiu-me o corpo. Estava em casa.

Entrei, deixando o cheiro da madeira queimada e do fogo invadirem-me a mente. A lareira estaria acesa.

Na pequena cozinha, um bule aquecia água, para um chá. Este começou a chiar bem alto. Uma porta bateu no fundo do estreito corredor. Os paços soavam no soalho, fazendo-o estalar ao mesmo ritmo que as palpitações do meu coração.

A porta da cozinha abriu-se.

O jovem homem olhou-me esbugalhado, por entre tremuras de um susto imenso. Soube, quando o fitei, que a minha memória não me tinha traído: olhos castanhos, cabelo revolto e tez morena, com uns patéticos óculos pendurados na ponta do nariz singelo.

Sorriu-me e em seguida correu para mim, arrebatando-me do sítio onde me sentara, ainda encostada à porta das traseiras e tomou-me nos seus braços, ignorando o constrangimento que em tempos teria sido criado pelo meu corpo desnudado.

Senti-lo ali, sob os meus braços. Sentir o seu cabelo sob as minhas mãos e sentir os seus lábios nos meus, num beijo longo e demorado, como tentando compensar o tempo já passado.

- Acabou? – perguntou ele num leve sussurro ao meu ouvido.

As lágrimas começaram a escorrer no meu rosto uma vez mais, encharcando a camisola de lã cinzenta que ele vestia.

Adormeci assim, ancorada nos seus braços, esperando que a manhã revelasse algo melhor do que a escuridão da noite adormecida.

Acordei simplesmente na manhã seguinte, na sua cama, vestindo apenas a camisola que ele antes envergava.

Abri os olhos e logo o vi, diante do meu rosto, com os seus olhos nele pendurados, examinando-o com o maior dos cuidados.

- O que é que aconteceu? – perguntou-me quando me soube perfeitamente acordada.

Uma jorrada de palavras caíram sobre ele e, durante alguns segundos, enquanto o via processar informação, duvidei que pudesse transformar todas aquelas palavras em informação minimamente útil.

- E agora? – foi tudo o que conseguiu perguntar, após tais notícias.

Levantei uma sobrancelha.

- Eu estou aqui – respondi, assegurando-o da minha presença com um leve toque. – E elas não vêm à minha procura. Prometo.

- Eu não te queria forçar a fazer tal coisa. Não é justo para ti, Adriadne.

- Tu não me obrigaste a fazer nada e eu estou de consciência tranquila – e uma parte de mim enrijeceu pois no meu íntimo sabia que só parte de tal declaração era verdade.

- Desculpa – disse, em forma de lamento. – Devia ter-te deixado naquela praia no momento em que te achei.

- Ivan, se não gostas desta situação, eu compreendo. Eu posso partir e nunca mais me verás. Podes viver aqui para sempre e nunca mais ouvirás falar sequer de sereias. Serás feliz. Eu sei que é muito mais fácil ser feliz sem mim.

- Se o sabes então estás errada. A felicidade sem ti é algo impossível de atingir – e esboçou um sorriso aberto. – Obrigada por teres voltado. Pensei que não mais te veria.

- Eu prometi que voltaria e eu cumpro sempre as minhas promessas.

- Diz me algo, então. Como é que te sentes em relação a isto? – disse apontando para o meu coração.

- Como assim? – perguntei intrigada.

- Tu sabes… Em relação aos assuntos da alma…? – disse a medo. – Já acreditas que ela lá está?

- Não! – exclamei surpresa.  – Duvido que alguma vez estará. Já tenho alguns sentimentos: tristeza, saudade,… Acho que uma alma seria pedir demais.

- Então responde-me: achas que é possível amar alguém sem alma?

- Acho que quando amas alguém, ama-la pela sua essência. Pelo que essa pessoa é. A alma é o que a define. Duvido que possas amar alguém verdadeiramente quando esta não possui alma. Quando esta não é ninguém ao certo.

- Pois então penso que é definitivo quando digo que tu possuis alma.

- Porque é que dizes tal coisa?

- Porque… porque eu amo-te… Eu amo-te Adriadne. Eu amo tudo aquilo eu fazes e que dizes. Amo quem tu és. E a tua alma… Ó Adriadne a tua alma é a mais bela que eu já alguma vez testemunhei.

Ivan pegou nas minhas mãos e tomou os meus lábios, porém estes ficaram imóveis por debaixo dos seus. O impacto de tal aterradora notícia deixou-me imóvel e, sem que as conseguisse suster, as lágrimas começaram a escorrer-me lentamente pelas faces.

- Porque choras, meu amor? – perguntou-me de forma preocupada.

As lágrimas transformaram-se num choro acompanhado por um soluçar compulsivo. Levantei-me da sua cama e vagueie apressadamente pelo seu pequeno quarto, acabando por aterrar junto à porta.

- Adriadne, o que é que se passa? – voltou a interrogar-me. – Está tudo bem, - garantiu-me. – Por favor, não chores – pediu-me penosamente. – Porque choras assim?

- Porque… - comecei, por debaixo dos tristes soluços. – Não percebes que nunca, num milhão de anos, eu poderia ter os mesmos sentimentos em relação a ti, como tu sentes em relação a mim? Não percebes que, por muito que eu queira, eu nunca vou poder amar-te? Não percebes o quanto isso me dói?

- Adriadne… - suspirou ele. – Tu um dia perceberás o quão falso isso é. E, nesse dia, eu vou estar aqui. Por agora, só te queria dizer isso mesmo: que te amava. Porque é essa a verdade: eu amo-te. E não toleraria que voltasses a partir sem saber a verdade.

- Eu não vou voltar a partir. Eu vou ficar aqui – assegurei-o. 


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publicado por Jessie Bell às 23:00
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so many mystic stories (3):
De copodeleite a 7 de Janeiro de 2012 às 23:04
com uma dose dupla da história, estou maravilhada. criaste uma história linda com um enredo sublime. parabéns!
bj


De Raquel a 6 de Janeiro de 2012 às 23:32
emotivo, ponto. quero mais :)


De Annie a 6 de Janeiro de 2012 às 20:04
que fofinhos, eu compreendo a Adriadne mas eu também concordo com Ivan: ela tem alma. É uma alma pura e diferente de todas as outras. É uma alma muito mais bonita


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