Sábado, 29 de Outubro de 2011
Capítulo 2 - Morte

Continuou a olhar para mim, com uma expressão mais atemorizada que a minha.

Não soube como agir, não era uma situação que me fosse minimamente familiar, no entanto, contra todas as minhas prezes, ele soube.

Torceu o punhal dentro da minha coxa, fazendo o corte abrir mais e depois, num movimento rápido e ágil, retirou-a, empurrando-me, em seguida, contra a parede rochosa, da pequena enseada.

Afastou-se de mim, acocorando-se onde as bravas ondas lhe batiam nos pés. 

Agarrei os joelhos e depositei o meu entorpecido rosto, sobre eles. Preparava-me para morrer.

Mais um golpe. No pescoço, no coração… Ou nem isso. Não demoraria muito até todo o sangue fugir do meu esbelto corpo.

Não poderia fugir para a água. Não só ele estava no meu caminho, como uma seiren não podia entrar na água com feridas. Estas tinham de ser curadas na terra, caso contrário, vazaríamos em sangue, mais depressa do que na terra.

O meu fim estava perto. Sabia-o, tão certo como a ferida aberta que latejava na minha perna esquerda.

Quanto tempo me restaria? Demasiado, é certo. Demasiado tempo a aguentar aquela dor que se tornava insuportável. Queria-lhe pedir para que acabasse com a minha miséria, com o meu sofrimento. Porém não o fiz.

Não por ele parecer mais amedrontado, que eu mesma. Não por falta de coragem. Mas simplesmente por não querer morrer a implorar a minha morte, ao meu próprio assassino.

Passaram-se alguns minutos, demasiados minutos. Ele olhava para mim, por entre os cabelos castanhos que lhe pendiam para a cara garbosa e nada dizia. Apenas agarrava o punhal de cabo preto, nas mãos caracteristicamente masculinas. Quiçá esperasse, apenas para assistir à minha terrível e lenta morte. Ou então, recusava-se a abandonar a enseada, com temor que o atacasse. Talvez quisesse guardar o meu corpo liberto de vida e profaná-lo, tal como estava para fazer com o dele.

Não me interessava.

A morte não me era causa de horror. O sofrimento, sim. O momento em que a minha vida desprovida de objectivo abandonava o meu futuramente podre corpo, não.

Nada me interessava. Nada me interessava, até ele abrir a boca para falar.

- O que é que tu és? – Perguntou ele, com uma voz de timbre grave e sonante.

Fiquei demasiado surpreendida com a sua desarmante pergunta, para lhe conseguir responder de seguida. Não era suposto ele fazer-me perguntas. Não era suposto fazermos conversa de ocasião até as forças me abandonarem o corpo. Iria ele dar-me misericórdia, se lhe respondesse a um par de perguntas?

- Sou uma seiren – proferi com a voz subitamente a falhar-me.

Vi o seu rosto contorcer-se numa obtusidade pura, enquanto eu voltava a roçar as faces rosadas aos meus estranhos e pálidos joelhos.

- Uma sereia – disse, como corrigindo-me, numa expressão mais esclarecida. – Foste tu que mataste os meus amigos? – Perguntou-me, numa acusação vil.

- Não sei – disse-lhe, admitindo a verdade.

- Foste tu, não foste?! – Voltou a perguntar, sem pedir resposta. Enquanto apertava mais nas mãos viris a afiada faca.

- Não sei! – Voltei a responder-lhe. – Eu já matei muitos homens. Eu não sei quem são os teus amigos… Mas eu não cacei aqui. – Admiti, vendo a sua cara contorcer-se quando proferi a palavra “cacei”.

- Tu comes homens. – Proferiu, sem necessitar uma resposta, para provar aquilo que, até àquele momento, tomava como uma descrença.

- Os mais fortes alimentam-se dos mais fracos – expliquei-lhe.

Ele olhou-me com repugnância, como se eu fosse um monstro.

A incerteza certa da minha morte atormentava o meu inútil ser. O sangue jorrava pelo rasgão aberto. Começava a custar-me respirar. A ideia de que passaria os meus últimos momentos a lutar pelo meu último suspiro, sem nunca o conseguir apanhar, aterrorizava-me.

- Vou morrer? – Perguntei-lhe com a voz mais fraca e rouca, que nunca. Vi o seu gesto remexer-se numa tristeza profunda. Se ia morrer, ele não o desejava profundamente. Olhou para mim e fixou os olhos no golpe que me infligira.

- Tu ias-me matar – disse, como se desculpando.

- Toda a gente tem de se alimentar. Eu não escolhi alimentar-me de humanos. Os da tua espécie também comem outros animais. Porcos, vacas… Achas que eles não sofrem?

- Eles não têm alma – expirou, mais calmo.

- Então não te sintas mal por acabares com a minha vida. Eu também não tenho.

Ele olhou para mim com uma expressão nebulosa.

- As sereias não têm alma? – Perguntou-me curioso.

- Têm. Mas eu não.

- Porquê?

- Dir-to-ei se me prometeres que, quando acabar, me espetas esse punhal no coração e arrastas o meu corpo para o mar, para que eu possa ser esquecida e engolida pelas profundezas do meu lar.

- Prometo.

Suspirei, ao sentir que o meu fim estava um pouco mais perto.

- As seiren apenas podem ter uma filha. Uma vez. Em toda a sua vida. Isso só acontece quando encontram o homem que, verdadeiramente, amam. Quando o encontram, fazem amor e deixam-no para viver. Porém, todos os amores têm de ser correspondidos para resultarem. A minha mãe conheceu o seu amor aqui, nesta praia. Ela amava-o, como nunca antes tinha amado, mas ela não sabia. Ela não sabia que ele não a amava. Assim, quando a minha mãe me concebeu com ele e o deixou para viver, eu sofri uma maldição. Atargatis desenhou-me com toda a minúcia, colocando em mim todas as mais perfeitas qualidades, mas desproveu-me de alma. Tornando a minha vida inútil. O meu pai não amou e, assim, eu estou e estarei condenada a não usufruir de sentimentos, de sensações. Eu nunca amei e, mesmo que por milagre eu saísse daqui viva, nunca o poderia fazer. Por isso, não te sintas culpado ao tirar-me a vida, pois duvido que aquilo que fiz, aquando tive uso deste corpo, se possa chamar vida.

 Sentei-me à espera de sentir o golpe prometido no meu coração. Porém, nada senti. O vazio invadiu o meu molestado corpo. Sem golpe, ou com golpe, a morte invadiu-me o ser.


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publicado por Jessie Bell às 00:31
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