Sábado, 29 de Outubro de 2011
Capítulo 8 - Lei

Os seus olhos abriram-se para me fitar no momento em que os nossos lábios se separaram. E depois, no momento em que me preparava para estudar o interior dos seus olhos, ele afastou-me, num passo pesado, ao empurrar-me pelos ombros.

- Isto foi uma má ideia – admitiu, mais para si, do que para mim.

- Não me pareceu que tivesses achado uma má ideia – disse, ainda relembrando aquele ardente e memorável beijo. Toquei-lhe no braço, tentando quebrar a distância que se tinha levantado entre nós. – Porquê tanta relutância? – Perguntei-lhe, ao tentar procurar uma réstia de verdade nos seus olhos escuros.

- Eu já to expliquei.

- E eu já te propus uma solução… E tu, bem… Tu pareceste concordar com a minha aliciante proposta – disse, percorrendo o seus braço, ao de leve com os meus dedos.

- Não posso ter mudado de ideias? – Perguntou-me, num vago sorriso.

- Não! – Exclamei.

Sem mais uma palavra proferir, Ivan voltou a sentar-se na cadeira, daquela que era uma belíssima escrivaninha.

- Vais-me evitar? Outra vez? Não me apetece mesmo partir mais nada – suspirei.

- Eu tenho medo… Compreende isso – disse, sem por uma vez me olhar.

- Não, não compreendo – disse. – Eu não sei o que é o “medo”, por isso, não vejo como é que eu possa compreender tal conceito – proferi, da maneira mais concisa que encontrei.

- O que é que vamos fazer? – Perguntou-me.

- Não sei… Eu gosto de te beijar – admiti.

Ivan rodou a cadeira, vagarosamente, e fitou-me com aquilo a que se chamaria intriga.

- Obrigado. Acho - acabou por dizer.

- Não podemos simplesmente levar as coisas para a frente, sem ter de tomar em conta todos os ínfimos detalhes?

- Bem... - ponderou, por momentos. - Não vejo outra opção.

 

Vários dias se passaram. Dias francamente, estranhamente e agradavelmente bons. Dias cheios de toque. Dias cheios de gestos carinhosos recíprocos. Revelara-se algo de muito bom para o meu ser. Sentia todas as minhas células a arrepiarem-se de êxtase, somente pela sua marcada presença.

Ivan parecia também apreciar estes pequenos momentos de luxúria, que partilhávamos. A minha presença tornara-se algo muito mais simples na sua mente e talvez até apreciável.

No entanto, nem mesmo o conforto do seu abraço, onde me depositava neste momento, me impediu de proferir aquelas que corresponderiam às derradeiras palavras:

- Preciso de caçar.

O silêncio, que dantes era quente e leve, tornando o ambiente confortável, rapidamente se tornou frio e pesado, não me sendo possível quebrá-lo.

Talvez aquele silêncio significasse muito mais que qualquer palavra que pudesse ser dita. Talvez ambos quiséssemos esticar ao máximo aqueles nossos momentos de prazer. Porém a minha natureza chamava-me ao mar, para me saciar.

Era imperativo que o fizesse, antes que a loucura se apoderasse da minha sanidade e me levasse a alimentar-me de Ivan.

Apertou-me mais nos seus braços e afagou-me o cabelo ruivo, como tanto gostava de fazer. E depois afastou-me do seu peito e virou-me. Sentei-me à sua frente, no sofá, de pernas cruzadas, com os olhos vidrados nos seus.

- Vais caçar um humano, Adriadne? – A minha boca abriu-se num pequeno e redondo “o” e a minha marmórea pele arrepiou-se, quando proferiu o meu nome.

Olhei-o, sem saber o que dizer. O meu ser, a minha natureza, pedia-me carne humana. Sangue e carne. Porém, havia algo mais. Algo que não conseguia determinar. Algo que desconhecia, mas que me chamava a tomar uma decisão mais humana.

- Por favor não o faças, Adriadne.

E lançou-me um olhar tão penoso, tão cheio de lástima e de mágoa. Cheio de frio e tristeza e amargura. E até mesmo um ser desprovido de alma, como eu, não conseguiu resistir.

- Por favor – repetiu.

- Não o farei – disse-lhe.

- Obrigado – agradeceu-me, abraçando-me em seguida, somente para provar a sua gratidão. – Quando vais? – Perguntou-me, num sorriso preocupado.

- Agora? – Respondi, naquela vaga pergunta.

Levantou-se e estendeu-me a mão, que agarrei com agrado. Após nos levantarmos do sofá, conduziu-me pela porta da entrada e rodeámos a bonita casa, até chegarmos à pequena praia, que se avistava da janela da sua sala de escrita.

O mar agitava-se por debaixo das nuvens escuras, que cobriam o céu outrora azul. O vento bulia furiosamente, fazendo abanar a pouca vegetação envolvente.

Avançámos pela pequena praia, até o mar frio nos tocar os pés. Ivan olhou-me espantado.

- Não pensaste que me apareceria uma cauda, só com um bocadinho de água, pois não? – Perguntei, ao que ele respondeu com um sorriso acanhado.

Larguei a mão que apertava a minha com grande veemência e, sem hesitar, comecei a tirar todas as peças de roupa que cobriam o meu corpo, enquanto sentia os olhos dele, cravados nas minhas costas.

Quando nada mais do que a fina pele cobria o meu ser, atirei-me para o meu lar, à espera de um conforto que não me assolou. Senti uma leve dormência, e quando olhei para as minhas pernas não as encontrei, apenas a minha amaldiçoada cauda bailava com a corrente, brilhando à ténue luz e relembrando-me de algo certo que preferira esquecer.

Subi à superfície, apenas para o vislumbrar uma outra vez.

Os seus olhos arregalaram-se, quando emergi, por entre as ondas agitadas. Acenei-lhe com um sorriso aberto.

- Quando voltas? – gritou, medroso de que a minha audição me errasse.

- Encontramo-nos aqui. Daqui a dois dias – disse, bem alto.

E ele assentiu num movimento de cabeça vincado. Acenei-lhe com a mão, bem alta e depois afundei-me na água docemente salgada.

Há muito que não nadava com tamanha liberdade. A simplicidade do objectivo de certa forma inebriava o meu ser.

Vários quilómetros se passaram e já a noite contemplava o céu. A minha procura corria bem e seguia agora um cheiro deliciosamente familiar. Segui-o durante alguns minutos e cada vez o sentia mais intenso, por debaixo das minhas narinas. Aproximava-me a um ritmo alucinante e não demorou muito até vislumbrar o grande animal, de cor cinzenta.

De trás segurei-lhe o pescoço carnudo e senti-o debater, por debaixo dos meus poderosos braços. Os meus dentes cravaram-lhe a rugosa pele e numa fracção de segundo senti-os a afundarem-se dentro da sua carne. Suguei o delicioso líquido e lambi os lábios, perante o meu modesto manjar.

O esqueleto foi deixado para trás no momento em que nada restava se não os brancos ossos, limpos com a maior minúcia que poderia ser conferida com dentes afiados.

Nadava agora na rota contrária à procura de mais algum que me saciasse a pequena fome que ainda miava dentro de mim.

Outro rasto foi apanhado e eu segui-o, porém sem grande sucesso, pois no momento em que definia o caminho a tomar, um outro odor invadiu-me a mente. Um odor bastante mais apetecível. O odor que sem dúvida se apelidaria de pura tentação. Segui-o até encontrar a sua origem.

Porém, nada mais do que o puro choque me assolou o ser. Nada do que eu esperava ver, vi. Não era um homem a ser devorado. Era uma mulher de meia idade, onde se distinguiam ainda os cabelos com as raízes grisalhas.

Olhei aquela seiren em absoluto espanto e só quando ela me fitou, com um pedaço da coxa da mulher na boca, é que pensei em fugir.

Engoliu o pedaço secamente e deixou cair o corpo morto, no chão, que se encontrava a poucos centímetros a baixo. No entanto, quando o fez, a sua cara não regressou ao aspecto normalmente angelical, que deveria adquirir. Nada de isso, permaneceu vincado por entre rugas fortes e cavadas, mostrando todos os dentes afiados naquilo que seria um sorriso. Olhei a sua cauda e nada mais observei, se não um tom medonho de preto.

Seria ela, aquela que devorara a família dele?

- Quantas vezes é que já isto fizeste? – Perguntei, com tamanha solenidade, mantendo a distância segura.

Os seus olhos negros mais nada raiaram senão uma fúria imensa.

- As suficientes, para me manter viva – respondeu, com uma voz feia, grossa e rouca.

- Tu sabes as leis – respondi-lhe.

 


tags:

publicado por Jessie Bell às 00:37
link do post | Write a mermaid story | favorito

Janeiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


Janeiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


arquivos
mais sobre mim